#149. A minha língua
Rabiscando um léxico pessoal
Todas as coisas que falam a minha língua. Haiku de barriga para cima no cobertor de pelúcia do sofá. As folhas roxas da ameixeira aparecendo com os primeiros indícios de primavera. Café com leite. Assei cookie de limão e comprei uma máquina nova de café, quer vir provar? Uma amiga. Pintar as unhas com esmalte bordô, glitter no indicador direito. Estou passando aí com um bolo cor-de-rosa. Outra amiga. Uma carta do tarô mágico dos gatos, primeira coisa da manhã. Should I stay or should I go? Tomar quatro gotas de floral quatro vezes por dia. Estudar florais. Gostar de estudar florais. Presto atenção no ar que entra e sai e então lanço a pergunta para a gata malhada que morde a pata da frente, como você está sentindo. Ela responde: não gosto do nome que você escolheu pra mim. Será que ela falou mesmo comigo ou é só imaginação? Por via das dúvidas, decido chamá-la por outra alcunha. Sair para caminhar no mato com os gatos às sete e meia. Abrir um livro que chegou pelo correio. Cheiro de cândida no chão limpo. Acordar, pôr as mãos no peito e dar graças. Ainda estou viva, não sei como você se chama, mas obrigada por me manter aqui. É que gosto deste corpo, apesar de tudo. Um dia talvez eu volte a servir dentro das minhas calças jeans. Colocar flores novas no túmulo da minha gatinha. Lembrar dela. Uma lambida da gata que continua viva. O pelo sedoso da Lillipot. A audácia da Lillipot tentando alcançar um pássaro no céu. Vôo. Graças a Deus porque ainda existe o inalcançável. Abrir a porta e encontrar quinze vacas refugiadas no jardim de casa. O barulho da panela de pressão cozinhando mandioca. Japa mala de quartzo transparente com madeira. Roupas saindo da máquina de lavar. Vontade de ir embora daqui. Vontade de ficar. Confusão, dúvida, desespero e a rosa imensa de pétalas pink que abriu há um par de dias no jardim. A natureza nem sempre é discreta nem tem vergonha de ostentar. Os sete potes de água diante da estátua do Buda no quintal transbordaram com a chuva. Desejar a felicidade dos outros. Ligação da mamãe. O gorro verde limão que tricotei quando ainda era casada. Contas do mês pagas. Vontade de encontrar um novo lugar para chamar de casa. Nunca ter sido capaz de encontrar um lugar para chamar de casa. Escrever mais uma edição do Sofá. Incenso tibetano queimando. Saudade do Nepal. Saudade da Índia. Você não precisa ter uma decisão final sempre, dar só o próximo passo é suficiente, diz a amiga. O cookie de limão dela é bom mesmo. Planejar a semana sabendo que não vai dar tempo para tudo. Pensando agora, não lembro quando foi que deu tempo para tudo. Mas sou assim, não tem jeito. Apesar de querer ser outra a maior parte das vezes. A gente tenta ser diferente, mas a gente é o que é. Um desejo: aceitação radical. Comecei colocando a caneta no papel sem saber o que escrever, só com o título, a minha língua. É bonito quando uma palavra gruda na outra. Reconhecer a minha língua. Existe um universo que me habita, existe um universo que eu habito. Do que a sua língua é feita? Meu país é cheio de erros de concordância: dou errado pra tudo. Mas pelo menos as minhas frases são simples e inclinadas a uma certa elegância. E as suas? A gravidade é uma força que alcança todos os corpos, exceto os etéreos e os sutis. Os espíritos e os fantasmas podem voar e atravessar paredes. Pelo que parece, eu ainda sou feita de matéria. Nem que seja só um ponto, nem que seja só este texto, você me lê agora e eu escrevo pra você. Por uma razão que desconheço, nem que seja por um instante, minha língua é recebida aí, de uma certa forma ela se torna um pouco sua, cometa que cruza a sua atmosfera e vai queimando por camadas até desaparecer. Este texto está acabando. Por uma razão que não compreendo, hoje os nossos universos decidiram se tocar.
“Preciosa vida, preciosa morte”: inscrições abertas para o próximo Atelier de Escrita Reconectiva
De 06/04 a 03/05 Assim como há dureza na vida, também há suavidade na morte. Quantas lutos e quantos renascimentos dá pra viver num corpo só? Esta edição do atelier de Escrita Reconectiva convida a encontrar com a morte por meio da escrita.
Um atelier prático. Quatro vezes por semana, meia hora por encontro, começamos o dia escrevendo para observar a vida a partir do prisma do fim.
Encerramentos de ciclo, renascimentos. A fênix; a nova pessoa que se inaugura quando viramos mães de alguém. A partida da avó, a planta que murchou por excesso de água. Morte e a vida, juntas: este é o tema do atelier, que alia escrita com mindfulness & compaixão e, aqui, reflexões budistas e literárias sobre a morte.
Quando De 06/04 a 03/05. Segundas, terças, quintas e sextas.
Das 8 às 8.30 da manhã (horário do Brasil).
Online pelo Google Meet. Os encontros são ao vivo e ficam gravados.
Para quem? O atelier é aberto a todos. Não é preciso ter experiência nem projeto de escrita em andamento.
Para quê? Este atelier é ótimo para quem quer desbloquear um projeto, ganhar intimidade com a escrita, expandir o vocabulário criativo ou simplesmente se reconectar.
Valor R$200 ou 35 euros (para quem não está no Brasil)
*Está com dificuldades financeiras e deseja participar mesmo assim? Por favor escreva - ofereço duas bolsas por atelier.
Sabia que eu tenho dois livros publicados?
E eles são lindos. Quer apoiar este Sofá? Você pode comprar meus livros por aqui:
O mundo sem anéis
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Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,




A minha língua é: começar a semana lendo o Sofá da Surina.
universos que se tocam ao acaso. e viva o aleatório da vida!