#137. Afinal de contas, é a sua vida
Dossier Mindfulness, parte 3: be still and let the world touch you
Touch and go. Há, dentro de nós, uma faca invisível capaz de cortar a obsessão com pensamentos. A faca é afiada o suficiente para atravessar a roupa grossa daquela nossa tendência do espera aí, vou pensar mais um pouquinho aqui e devolver a atenção para o ar que entra e sai. Os pensamentos, as emoções, as percepções que estão de passagem voam no ar como balões de hélio. Esta é a parte do go.
Mas a instrução que recebemos no início do retiro de mindfulness tem também a primeira parte - a do touch. Ela é igualmente importante, porque é a parte do contato, a instrução que convida a estar na companhia do que é agradável e do que é desagradável. É a instrução de fazer amizade com o que se passa conosco. É a instrução do reconhecimento. Eu te vejo, você está aqui.
A intenção não é te ensinar a suprimir os pensamentos. Nosso objetivo não é fazer uma lobotomia. Durante a sessão, o que queremos é reconhecer o que quer que surja e então deixar que siga o seu caminho
, explicou o instrutor americano no dia 6 de outubro, nosso primeiro dia de retiro.
É fácil querer expurgar os pensamentos que passam pela minha cabeça quando estou completamente neurótica e obcecada com as bad vibes - quer dizer: depende, porque às vezes quero me agarrar com unhas e dentes às minhas magoazinhas de estimação. Por outro lado, desejo manter intactas as minhas deliciosas ruminações de ideias e conceitos queridos. Por que, então, meditar? Quanto tempo posso ficar com cada pensamento antes do go?
Touch and go. Quando tentei sentar em meditação num zendo parisiense em 2012, achei que ia enlouquecer olhando para a parede por vinte minutos naquele lugar impecável. As minhas tentativas de meditar em outros centros da capital da Luz naquele ano seguiram o mesmo padrão: tudo que eu conseguia pensar era na lista de compras.
Sabão em pó com desconto, uma camiseta branca, alho poró. Queria que a lista de compras desaparecesse enquanto uma luz brilhante emanasse do zafu. Eu me levantaria mais leve, mais calma, mais flexível, cheia de ideias criativas e pronta para viver. Eu queria comprar umas cápsulo no balcão do meu supermercado imaginário, sem esforço e cheias de purpurina, a solução para os problemas da vida. Às vezes é assim que nos vendem a meditação, em especial mindfulness - como uma fórmula.
Volto para a pergunta durante uma entrevista individual com a instrutora ao fim da primeira semana de retiro: quanto tempo posso ficar com cada pensamento antes do go?
Isto só eu posso responder, ela diz. A técnica instrui a voltar para respiração, mas tenho que experimentá-la dentro do próprio corpo. Vamos conversando a cada quatro dias pra ver onde você está. Este é um percurso de exploração só meu, uma técnica simples onde há espaço suficiente para um mundo inteiro de descobertas.
Quer dizer que não é um jogo seríssimo onde eu tenho que marcar a resposta correta?
De repente me sinto curiosa e animada.
Existe algo de muito singelo no gesto de sentar-se sobre uma almofada quadrada marrom e sobre ela permanecer em silêncio por oito horas diárias ao longo de quatro semanas na companhia de outras pessoas. Existe algo de muito corajoso, também.
Estamos juntos na sala de janelas grandes e piso de madeira, simplesmente respirando juntos. Quando, na vida, a gente para tudo? A gente nunca para tudo, menos ainda com a intenção de visitar a sessão de baixarias que habita a nossa mente. Além disso, é complicado parar tudo: a caixa de email enche de mensagens e a casa do outro lado do globo terrestre fica mais triste sem a nossa presença. Mas aconteceu. É tipo um milagre. Estamos sentados nos nossos zafus, e uma sensação morna de intimidade preenche a sala.
Nesta almofada ao fundo, o filme da minha vida passa diante de mim numa tela tão invisível quanto vívida onde pulam emoções, revanches e diálogos justiceiros. Lembro do começo do ano e me sinto humilhada, depois tenho raiva, não vou aguentar. Monto no monstro e digo tudo que não tive chance de dizer, vou pra longe, pra bem longe, e quando percebo que me perdi, decido juntar as forças e retomar as instruções do primeiro dia. Touch and go.
Em menos de dois minutos já me perdi de novo.
O filme continua, o WhatsApp no celular que ficou no quarto berra mensagens importantes ou inúteis, tanto faz - à distância, ambas me convencem que são imperdíveis. O sino toca: dez minutos de meditação caminhando. O sino toca: de volta para o zafu. O peito enche, o peito esvazia. Os lugares são marcados, então a minha vizinha da frente é a mesma durante o mês todo: uma indiana de meia idade que mora nos Estados Unidos e veste as roupas de algodão mais bem cortadas da turma. Como será que ela mantém estas roupas tão bem passadas num retiro destes? Agora já não sinto mais tanto sono, pelo menos não tanto quanto no começo. As costas estão mais retas, não preciso me escorar na parede. O filme da minha vida. Reforma da casa, ideias para os próximos livros. Decido que assim que terminar vou desenhar gatos saindo de uma boca que na verdade é uma fonte d’água; vai ficar incrível. Depois esqueço tudo. Respiro. Touch and go.
O filme da minha vida. O meu futuro, começando do dia em que eu sair deste centro de retiros. A casa vazia em Portugal cheia dos meus sonhos desfeitos. Pavor. Os meus sonhos refeitos: quero passar meses na Índia, entrar em retiro longo, virar uma budista respeitada e séria, escrever livros engraçados e leves e profundos que trarão impacto para a sociedade e ajudarão muitos seres. Agora não estou mais na Índia, voltei para Portugal e beijo meus gatos. Comprei árvores e estou reflorestando a minha chácara. O vento bate, uma coluna de ar: inspiro, expiro, me desfaço na exalação.
A história da minha vida, o filme da minha vida. Um filme de terror. Uma comédia romântica. Um drama arrastado. O sino toca. Nova sessão. Eu continuo aqui. Meus amigos continuam aqui, estamos no dia 24. A estátua do Buda no altar, dourada, com sete tigelas de água à frente e arranjos florais de azaléia cor-de-maravilha em vasos cristalinos.
Sinto dignidade por permanecer com as costas retas 8 horas por dia. Sinto uma imensa confiança de poder finalmente conviver com a minha mente. Estou acordada e respiro. Afinal de contas, esta é a minha vida. Estou acordada e respiro e encontro com o tormento desconjuntado que é tudo aquilo em que penso, tudo o que quero, meus sonhos e projetos que precisariam de cinco encarnações para serem realizados. As minhas micro alegrias - “será que vai ter pizza na janta?” -, as minhas imensas aflições - “não presto para nada”. Mas afinal de contas é a minha vida, e sou eu. Aos quarenta e cinco anos de idade já tinha passado a hora de nos conhecermos melhor, só nós duas. Eu comigo mesma.
Nos primeiros dias fez muito calor, mas agora que entramos na quarta semana um vento gelado nos visita pela grande porta de madeira onde estão encrustadas as lindas insígnias douradas - um leão, um tigre, um dragão e o garuda, pássaro místico que é o meu preferido porque representa audácia e liberdade. Ele representa a coragem de ser ultrajante, uma força que me inspira nas últimas semanas e com a qual desejo contato. Afinal de contas, não é fácil estar aqui. Houve esforço, dedicação, dinheiro economizado, planejamento. Para mim e para estas pessoas, e vejo nelas a mesma dignidade que encontrei em mim. Reconheço que sou casa para algo bondoso, uma parte que escolheu conviver com essas minhas outras partes esquecidas. Olho para fora e noto que os Himalaias continuam firmes do outro lado da janela enquanto o inverno se aproxima na nossa direção.
E esta é mais uma micro alegria.
Mindful novembro
Novembro é tempo de mindfulness no Sofá. Aproveitando o embalo do retiro longo que fiz em outubro, a editoria deste mês é um dossier no qual vou apresentando alguns aspectos desta prática, indicações de leituras, vídeos e outras referências.
Na primeira semana de novembro, escrevi sobre o tema da motivação: por que “mindfulness”? Semana passada foi uma conversa sobre três coisas pouco convencionais que descobri durante o retiro. Nesta edição eu fiz um relato sobre a experiência de meditação em si, em cima do zafu. Finalmente, a última edição de novembro vai ser um tema da moda: detox digital e mindfulness, uma conversa partindo da experiência do retiro longo.
Estas são as duas edições anteriores do Dossier de Mindfulness:
Recomendações
O texto da Ana Lima Cecílio sobre o enigma dos livros que vendem e o reino belo e misterioso dos que não encontram muitos olhos leitores.
Já tem um tempo que o Thiago Ambrósio Lage está escrevendo sobre as cartas do tarô, e esta última edição da Mercúrio em Peixes na qual ele compara as cartas da corte com a curva de crescimento microbiana é muito boa.
4 maneiras de apoiar o Sofá da Surina
Você pode apoiar comprando um dos meus livros: O mundo sem anéis - 100 dias em bicicleta e o 108 (entregas para todo o Brasil). Eles também estão disponíveis em formato Kindle (108 aqui e O mundo sem anéis aqui).
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Qualquer um destes apoios, mesmo os mais pequenos, são muito valiosos. Eles me ajudam a dar continuidade a este projeto de continuar escrevendo, te encontrando, produzindo arte, meditando, sendo humana e compartilhando com você o que eu descubro que dá pra fazer com este corpo e esta mente que decidimos habitar neste planeta azul chamado Terra, 2025.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,




O filme sem fim na nossa cabeça. Linda descrição. Sabe que sempre me pergunto o mistério da postura. Como ficar com as costas retas? Como não ter formigamentos? Acho que isso da pausa para andar deve ajudar. Sigo aqui na leitura 🧡
Que retiro foi esse? Fiquei curiosa!