Alienígena familiar
Quando a casa fala outra língua
1. Se não fosse no sofá à frente da porta de entrada, só havia dois outros lugares onde você podia encontrá-lo: caminhando em torno da pequena estupa memorial - o monumento sagrado contendo as relíquias de um importante lama da linhagem -, ou limpando o altar, com o avental cor de vinho apertado na barriga redonda e um pano na mão. Eu preferia assisti-lo na segunda tarefa. O homem esvaziava as oferendas de água dentro do balde, depois secava cada potinho como se limpá-los fosse tão natural quanto a própria respiração. Isso sim é mindfulness, eu pensava, não aquele monte de bla bla bla que vendem no ocidente. Ele trocava a água das flores e substituía as murchas, quase sempre crisântemos. Brancos, amarelos, e também os crisântemos artificialmente tingidos de azul-céu, horríveis, que ele tratava com a mesma hierarquia que usava para o resto. Parecia que todos ali mereciam a mesma apreciação. Potes, flores, balde, gente.
2. Era um monge, porque vestia trajes cor de vinho. O fato não chega a ser digno de nota, afinal de contas era Kathmandu e eu estava hospedada num monastério. Se havia minoria, eu é que era parte dela, com minha jaqueta azul marinho falsificada da North Face. Mas voltando ao homem, ele continuava serenamente concentrado na sua tarefa sem se distrair com a minha jaqueta nem com o tumulto de gente que ia e vinha. O tapete felpudo era colonizado diariamente por meditantes chineses, tailandeses, birmaneses, mulheres loiras com brincos coloridos, barbudos hippies, barbudos hispters, eu, todos nós que descobrimos que o segundo andar do templo era ótimo para as nossas práticas. Horário de abertura: das 8.00 às 11.30am e das 13.00 às 17.00.
3. Era inverno. Não havia aquecimento, exceto pela luz que entrava à tarde iluminando e deixando a sala mais quente. Era tão bonito. Kathmandu fica linda no inverno, mesmo com a poluição que baixa no ar frio, escondendo o sol ao fim do dia.
4. Com o tempo fomos nos conhecendo melhor. Os outros faziam passagens rápidas, mas eu ia todos os dias, de manhã e à tarde. Se estava no sofá quando eu entrava, o guardião daquela sala maravilhosa agora pegava a minha mão para checar a congelante temperatura, ria alto murmurando em tibetano, sumia por uma das portas e voltava com um chá misterioso. Todos os dias ele aparecia com uma coisa diferente: uma banana, uma mexerica. Teve uma semana inteira na qual me serviu coca-cola sem gás, e outra em que me entupiu de caramelos sabor doce de leite.
5. Às vezes ele me deixava ficar depois das cinco. Era raro, só aconteceu duas vezes naquele mês em que passei por lá. Ia embora largando as luzes ligadas - incluindo a das lamparinas de manteiga -, e apertava a tranca da porta pelo lado de dentro. Quando eu saía, a porta não abria mais, só no dia seguinte, quando ele viesse com a chave. Era preciso tomar cuidado pra não esquecer nada.
6. O que será que ele tanto recitava? Nunca soube e provavelmente nunca saberei. O homem só falava tibetano. Era sempre o mesmo texto ou eram preces diferentes? Na saída, ele me dava as duas mãos de novo e tocávamos a testa um do outro por cinco segundos. Ele fazia um comentário em tibetano, eu dizia see you tomorrow. Éramos duas línguas alienígenas entre si, ele um monge idoso e eu, uma mulher de meia idade do ocidente. Ignorávamos as palavras solenemente e seguíamos adiante, amanhã nos encontramos aqui de novo, e as paredes respondiam Sim, sempre na linguagem universal da alvenaria, testemunhas de uma amizade improvável. As paredes são como a página em branco; elas aceitam tudo, especialmente as indianas e as nepalesas, sempre pintadas com a permissão de uma cor absurda.
7. O homem passa os seus dias, de domingo a domingo, naquela sala. Com a mesma roupa vinho, com as mesmas visitas, com a mesma rotina (talvez). Não entendo o que diz, mas ele me parece satisfeito. Alegre, até. Havia muito espaço ali, naquele lugar minúsculo. Naquela sala, na mente daquele homem. Era fácil meditar com ele ali. Tudo estava no lugar certo.
8. No dia de ir embora, levei uma caixa com o melhor incenso que encontrei, caríssimo, e ele ficou tão feliz que deu um pulinho. Fez uma expressão de que era muito bom, riu. Enquanto ele rodava pela estupa recitando suas preces misteriosas, sentei na sala diante dele pela última vez e chorei. Eu tinha medo de ir embora. Às vezes a gente se sente mais em casa num lugar que fica distante. Eu me sinto mais em casa em Kathmandu, e em Kathmandu eu me sinto mais em casa ainda naquela sala em cima do templo do Monastério Shechen.
9. Quis abraça-lo, mas acho que a gente não sai por aí abraçando um monge. Ou será que pode? Quis contar pra ele que eu ia embora, mas não precisei. Ele fez a mímica de um avião voando, sim, sim, é um avião voando, o avião que vai me levar, o avião que não quero pegar, nunca nunca, odeio viajar de avião, ainda mais agora. Morrer é tipo trocar de roupa, pensei. Quem sabe na próxima vida eu não nasço em Kathmandu?
10. Senti-me mais à vontade com o homem desconhecido do que com amigos. Senti-me mais protegida na companhia dele, a afinidade é do reino dos mistérios. Senti-me mais à vontade e confortável em Kathmandu do que na repartição pública, e isto, meus amigos, é uma coisa que não entendo, já que passei uma década na repartição e só um mês naquele lugar. Um big bang antiquíssimo estilhaçou em pedaços o nosso lar original. Tome cuidado: numa das suas andanças, pode ser que você acabe esbarrando num pedaço da sua casa que se espalhou por aí.
Fevereiro no Sofá + uma notinha
Em casa no mundo: em fevereiro, as edições do Sofá da Surina vão girar em torno deste tema-obsessão. Na edição de hoje, escrevi sobre familiaridade em meio ao extraordinário, e no sábado que vem o texto será esquisitíssimo - uma conversa sobre construir nossa casa dentro da falta. Finalmente, o último texto do mês é sobre sentir-se alienígena na nossa terra natal.
Últimas vagas: Escrita Reconectiva em fevereiro
O primeiro atelier de Escrita Reconectiva começa no dia 23 de fevereiro e vai até 20 de marco. A turma já está quae cheia, mas ainda há algumas vagas. Vamos?
Reconhecendo o nosso jardim interior - este é o tema do primeiro atelier de Escrita Reconectiva de 2026. O que ilumina e o que assusta: aqui, todas as nossas partes são bem-vindas.
Um pouco por dia. Escrevemos juntos meia hora por dia, quatro dias por semana, sempre de manhã (das 8 às 8.30, horário de Brasília). A cada encontro eu proponho um ou mais exercícios curtos nos quais exploramos nossa experiência e criatividade.
Online e ao vivo, pelo Google Meet. Precisou faltar? Não tem problema. Os encontros ficam gravados.
Para quem? O atelier é aberto a todos. Não é preciso ter experiência nem projeto de escrita em andamento.
Para quê? Este atelier é ótimo para quem quer desbloquear um projeto, ganhar intimidade com a escrita, expandir o vocabulário criativo ou simplesmente se reconectar.
R$200 Vagas limitadas.
Próximos ateliers de Escrita Reconectiva - Abril e Maio
Para colocar na agenda: os próximos ciclos de escrita vêm aí :)
Escrita reconectiva em abril: Preciosa vida, preciosa morte
Assim como há dureza na vida, também há suavidade na morte. Quantas lutos e quantos renascimentos podemos viver num corpo só? O segundo atelier de Escrita Reconectiva de 2026 é um convite para encontrarmos com a morte por meio da escrita.
Quatro vezes por semana, meia hora por encontro, começamos o dia escrevendo juntos para observar a vida a partir do prisma do fim.
Encerramentos de ciclo, renascimentos. A fênix, que renasce das cinzas; a nova pessoa que se inaugura quando viramos mães de alguém. A partida da avó, a chegada da sobrinha, a planta que murchou por excesso de água. A morte e a vida, juntas: este é o tema do atelier, que alia escrita com mindfulness & compaixão e, aqui, também algumas reflexões budistas e literárias sobre a morte.
Quando: de 06/04 a 06/05.
Segundas, terças, quintas e sextas.
Das 8 às 8.30 da manhã (horário do Brasil).
Inscrições abrem nas últimas duas semanas de março
Escrita reconectiva em maio: passagem - narrando a viagem
“Somos feito a passagem dos dias.” A observação do poeta japonês Matsuo Basho (1644-1694) é o ponto de partida para o terceiro ciclo de Escrita Reconectiva do primeiro semestre.
O que é viajar? O que levamos na mala, qual o traçado da nossa passagem? Deslocamentos podem ser geográficos ou simplesmente íntimos, do fígado ao coração. Podemos viajar pela cidade, podemos viajar enquanto sentamos no ônibus para o trabalho, ou podemos viajar para outra cidade, país. De férias, para descobrir algo, ou para apagar uma memória ruim. Viajar para escapar.
Neste atelier exploraremos a ideia de viagem: a mala, o desconhecido, os rituais de travessia. Meios de transporte e a busca por horizontes. A partida como o antônimo da familiaridade.
Como em todos os ciclos de Escrita Reconectiva, escrever se combina com mindfulness e compaixão e, aqui, também com reflexões budistas e literárias sobre a ideia de viajar.
Quando: de 18/05 a 06/06.
Segundas, terças, quintas e sextas.
Das 8 às 8.30 da manhã (horário do Brasil).
Inscrições abrem nas primeiras duas semanas de maio
Ah! E que você seja feliz, sempre. Até a próxima,




Surina querida, sumi daqui. Voltei a trabalhar no final de agosto e acabei deixando o pratinho “Substack” cair. Agora, antes de dormir, li seu nome na minha caixa de entrada e fiquei com vontade da sua escrita. Que saudade que eu tava!
Gosto demais dessa relação com pessoas que vão além das palavras:)
E que proposta linda essa do seu atelier. Se eu conseguir me organizar, aparecerei em um dos ciclos! Um beijo ❤️
Querida, a casa está em todas as partes. Lindo esse teu encontro 💙