Chorar
1. Começou duas semanas depois da cirurgia. Eu me recuperava num apartamento que aluguei em Lisboa para o pós-operatório quando meu marido teve um acesso de fúria. Os primeiros gritos saíram da boca dele na hora do almoço, atravessaram a tarde e a noite, continuaram pela manhã e explodiram na madrugada do dia seguinte. Lembro da imensa vergonha que senti dos vizinhos, o que eles vão pensar? Era uma experiência nova. Eu tinha quarenta e quatro anos, era minha primeira cirurgia grande e era também a primeira vez que alguém gritava comigo daquele jeito, naquele estado. Na hora de dormir, notei ondas de frio subindo e descendo do corpo que tremia involuntariamente. Dois dias depois, o sangue escorreu numa cascata, coloca tudo na mala, vai, vai, casaco, gorro, carro, médica no telefone, espero que dê pra você chegar, emergência ginecológica do Hospital da Luz. Anticoagulante, fralda, quem vai passar a noite consigo?, perguntou a plantonista, e eu decidi que seria a amiga alemã. Naquela madrugada, entupida de medicação e sem saber direito onde estava, resolvi me separar do meu companheiro. É que certos limites são inegociáveis. Havia uma calma no ar. Antes de dormir, senti o fio de água deslizando no vinco entre a boca e a bochecha.
2. Faz pouco menos de um ano. Ao acordar no hospital, fiz uma promessa: se eu sobreviver, vou para Bodhgaya, o lugar onde o Buda se iluminou.
3. Nos dois meses que seguiram eu chorei pouco. Stress é perigoso, disseram os médicos, qualquer instabilidade podia abrir os pontos na cúpula da vagina e bum - seria direto para o bloco cirúrgico. Nosso corpo é um sistema inteligente e amoroso; o meu se fechou, esperando um momento sem riscos. Eu estava em mim, mas não estava. De volta à casa, as amigas iam e vinham enquanto eu via o mundo desfilar deitada no sofá contra o corpo peludo da Lillipot. Elas trocavam minhas meias de compressão, me davam banho, cozinhavam, acendiam o fogo, limpavam a casa. À noite, todo mundo ia embora. Eu não sentia quase nada. De hora em hora, caminhava 3 minutos para evitar trombose. Depois dormia um sono fundo e congelado onde os sonhos se esqueciam de mim dentro de um iceberg glaciar.
4. No equinócio de primavera, uma amiga me colocou deitada no banco de trás do seu carro azul e juntas voltamos a Lisboa para a consulta. Doutora Janete me deu alta com um sorriso angelical, está tudo bem, querida, graças a Deus. Minha amiga e eu comemos sushi num shopping perto do consultório. Era fim da tarde quando ela me deixou em casa. Fechei a porta e coloquei a água para esquentar. Quando sentei no sofá sozinha com a infusão de camomila entre as mãos, um tubarão se levantou, e das profundezas oceânicas a casa ouviu um grito sombrio onde cabiam todos os sons que me eram desconhecidos, e eram sons, apenas, sem palavras. Diante da notícia médica de que os riscos tinham passado, meu corpo despertou do seu torpor auto-imposto. No dia 21 de março de 2025 eu comecei a chorar.
5. Nos primeiros meses os nomes me fugiam, por isso eu chorava entre grunhidos. Eram uns sons muito estranhos. Não havia repertório para a solidão, o medo, ruína financeira, meses sem trabalhar, para os gatos doentes, as visitas veterinárias que eu não podia pagar, advogada em outra cidade, o carro estragado na garagem, o telhado da varanda que uma tempestade tinha arrancado, os pesadelos nos quais eu era assassinada, a casa vazia. A terapeuta nomeou para mim: é desamparo. Ela pedia que eu colocasse as mãos cruzadas sobre o peito, e miraculasamente eu sentia que elas me devolviam ao corpo. O que é que eu tenho?, perguntei-lhe, tão estranha que estava diante de mim mesma, e ela nomeou de novo: o nome disso é stress pós-traumático. Você não consegue mais se sentir segura dentro de si.
6. Grunhi e gritei muito nesta casa sem vizinhos onde (ainda bem) eu não precisava me preocupar em assustar os outros com meus barulhos desconfortáveis. Desespero, luto e solidão vinham juntos: era uma choradeira interminável. Deitada na grama gelada do quintal, pedia que a terra recebesse aquilo que não tinha nome, numa língua que nem era a minha, help me, help me. Aí eu levantava e fazia o almoço, mas era muito difícil comer ou lavar a louça.
7. Quando a época dos grunhidos acabou, teve a fase de chorar alto. Chorei todos os dias, sem exceção, da manhã até a hora de dormir. Chorei pintando, escrevendo e lavando a louça. Todas as obras que pintei em 2025 contêm lágrimas. Lillipot lambia minha bochecha com o seu bafo de peixe e eu deixava. O mundo era um campo minado; qualquer movimento era bomba. Uma foto no celular, uma mensagem, a última frigideira que compramos juntos, o vestido de noiva que eu tinha usado seis meses antes de tudo acontecer. Tudo virava uma explosão de água.
8. Chorei tanto que os vasinhos no meu rosto arrebentaram, por isso passei o ano com bochechas cor-de-rosa e nariz entupido. Não dava para segurar. Fazer o que? Com o tempo, deixei de ter vergonha de chorar na frente de estranhos. Aprendi coisas novas: que as pessoas ficam desconfortáveis quando você chora perto delas, por exemplo. Meu choro repelia os clientes que faziam compras diante das prateleiras do supermercado. No corredor onde eu escolhia a ração molhada para os gatos ficava assim, sabe? Um vácuo.
9. Em outubro viajei para a Índia, e o choro mudou. Continuava incontrolável, mas já não doía tanto. A distância é um bálsamo. Como meu retiro seria num lugar isolado, longe da cidade, me preparei com um pacotão de lenços de papel. Chorava em silêncio na almofada de meditação, oito horas por dia, vinte e quatro dias do mês de outubro, aquela água toda saindo, e era bom. Chorei porque tive que deixar o homem que eu amava antes do amor acabar, chorei pelo divórcio, pela inevitabilidade trágica, pela beleza dos nossos dias juntos, e pela malvadeza, pela mulher que eu tinha sido e que nunca mais poderei ser, e por todos os lutos que eu nunca tinha chorado antes. Já conseguia nomear: é alívio.
10. Assim que o retiro terminou, peguei o avião e fui para Bodhgaya. Sob a árvore onde o Buda atingiu a iluminação, me lancei ao chão numa prostração de corpo inteiro e não consegui levantar. Chorei estirada ali, copiosamente, com o pesar de toda a vida, e também com uma alegria incompreensível que era do mesmo tamanho. Depois de tudo eu estava viva, muita viva, ainda, no lugar mais bonito do mundo. Quando finalmente consegui voltar à verticalidade bípede, percebi que um monge de roupa cor-de-vinho me olhava. Seu olhar era diferente do olhar dos clientes do supermercado. Ele não tinha medo de mim. Deixou os olhos fixados nos meus com uma curiosidade incompreensível.
Agora reconheço os olhos de quem já chorou como eu chorei. O olhos do monge não tinham desconforto. Os olhos do monge não tinham pena de mim. Os olhos do monge não me julgavam.
Atelier de Escrita Reconectiva - Inscrições Abertas
Escrita + mindfulness + compaixão.
Vamos escrever juntos?
O atelier é assim: escrevemos juntos meia hora por dia, quatro dias por semana, sempre pela manhã (das 8 às 8.30, horário de Brasília). A cada encontro eu proponho um ou mais exercícios curtos nos quais exploramos nossa experiência e criatividade.
Reconhecendo o nosso jardim interior - todas as nossas partes são bem-vindas aqui. O atelier de Escrita Reconectiva é um convite para entrarmos em contato com a nossa própria experiência com respeito e amor: encontramos o que nos inspira e o que nos assusta com a liberdade da escrita permite. Criamos personagens, damos vida às memórias, escrevemos cartas a estranhos.
Para quem? O atelier é aberto a todos. Não é preciso ter experiência nem projeto de escrita em andamento.
Para quê? Este atelier é ótimo para quem quer desbloquear um projeto, ganhar intimidade com a escrita, expandir o vocabulário criativo ou simplesmente se reconectar.
Onde e quando? De 23/02 a 21/03, online e ao vivo pelo Google Meet. O encontros ficam gravados.
R$200 Vagas limitadas.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,




“No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto, comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu.”
Lembrei dos gritos do Antonino, no filme O Filho de Mil Homens. Fique bem ❤️