#143. Encontrar a morte
O que muda depois
Foi só depois de encontrar com a morte que comecei a ter medo de tormenta. Antes, não - antes não era assim. Antes eu gostava de ouvir as árvores chacoalhando em volta da casa e os ventos de oitenta quilômetros por hora com aquele barulho que ameaçava levar embora o telhado da varanda.
Mas o telhado nunca estragava.
Chuva, frio, trovão. Naquela época eu ainda não tinha encontrado com a morte. No tapete peludo da sala, Lillipot se divertia olhando as labaredas da lareira enquanto o Haiku ronronava de barriga pra cima. Tá tudo bem aqui, meus bichinhos, e a tormenta tinha isso. Antres de eu encontrar com a morte, a tormenta era a confirmação radical do refúgio. Enquanto estivermos aqui, em casa, estaremos protegidos.
Depois de encontrar com a morte, aprendi a ter mais calma.
Depois que eu quase morri, descobri que as minhas experiências preferidas podem não se repetir. Em vez de me apressar, isto me acalmou. É estranho como aquilo que a gente entende depois de encontrar com a morte não segue a direção da lógica.
Talvez esta seja a última e única vez que caminharei em Kathmandu, e isto me deixa terrivelmente melancólica, mas também satisfeita. Comprei incenso como se nunca mais pudesse voltar ao Nepal - porque pode ser que eu nunca mais volte -, e piso na estupa sagrada com a certeza de quem está no lugar certo. Encontrar com a morte me colocou no centro da existência. Talvez, nunca mais. Talvez esta seja a última edição do Sofá da Surina
, eu penso, prestando atenção nas ovelhas que pastam distraídas pelo verde do inverno através da janela do trem que me leva a Lisboa.
Daqui a pouco vai fazer um ano que encontrei com a morte. Quando chegou para mim, a morte veio com a delicadeza de uma fumaça de incenso
vamos?
, ela disse, e eu respondi que sim. Era uma noite de fevereiro. Deitada no banco de trás do carro com uma hemorragia enquanto meu então marido e uma amiga dirigiam para a emergência do hospital, senti que a morte me pegava pela mão e delicadamente, muito delicadamente, colocava meu corpo para dormir com uma cantiga de ninar, não vai doer nada, você vai ver: é só atravessar a porta. Fica até mais leve sem carne nem gravidade.
- Mas o que é que tem do outro lado?, eu quis saber, a voz saindo de dentro do torpor hemorrágico.
- Isso eu já não sei, porque faz parte dos assuntos de Deus. Eu só te ajudo na passagem.
Mas eu não morri. A meio do caminho, o celular apitou com a mensagem de uma amiga:
- Por favor, não morra. Eu preciso de você.
A voz foi tão assertiva que a morte soltou da minha mão:
- Vamos ter que cancelar, querida. Parece que desmarcaram o seu compromisso comigo.
- Mas é mais leve aqui, e além disso o meu corpo é um horror que está se desfazendo em sangue.
- Ah, minha querida, sinto muito. As paisagens dos vivos, estas é você que tem que atravessar. Procure os deuses do seu entendimento; eles costumam ajudar. A gente se vê de novo quando chegar a hora.
Ainda consigo sentir o perfume dela. A gente não esquece. Nem o jeito como ela pegou na minha mão. A gente reconhece quando a morte nos encontra.
Semana passada o telhado de casa quebrou pela segunda vez com a tormenta. Sei, agora, que telhados podem ser arrancados e que não oferecem refúgio quando os ventos estão fortes demais.
E o refúgio, então, onde está?
Espero a visita dela. Mamãe diz que mudei depois de ter encontrado a morte. De vez em quanto me espanto com minha falta de ternura. De vez em quando me assusto com a minha assertividade. Será que virei uma pessoa fria? Será que me transformei completamente em outra criatura? Cada um carrega dentro de si a própria vida. Quando eu encontrei a morte, entendi que ninguém vive nem morrerá por mim. O encontro com a morte é solitário, mas dentro dele cabe tudo que você viveu e todas as pessoas que te importaram. Piso mais forte, agora que encontrei a morte; peço menos desculpas e já não tento mais agradar. Sei que preciso resolver algumas coisas ainda antes do meu próximo encontro com ela. A gente tem que fazer o que a gente tem que fazer até lá, só isso. Mais nada.
Recomendação da semana
Para acompanhar a vibe gótico-funerária desta semana, recomendo este texto cheio de ternura da Bruna Lauer:
Atelier de Escrita Reconectiva - Inscrições abertas!
Escrita + mindfulness + compaixão.
Estão abertas as inscrições para o meu Atelier de Escrita Reconectiva que vai acontecer do dia 23/02 a 21/03.
O atelier é assim: escrevemos juntos meia hora por dia, quatro dias por semana, sempre pela manhã (das 8 às 8.30, horário de Brasília). A cada encontro eu proponho um ou mais exercícios curtos nos quais exploramos nossa experiência e criatividade.
Reconhecendo o nosso jardim interior - todas as nossas partes são bem-vindas aqui. O atelier de Escrita Reconectiva é um convite para entrarmos em contato com a nossa própria experiência com respeito e amor: encontramos o que nos inspira e o que nos assusta com a liberdade que a escrita permite. Criamos personagens, damos vida às memórias, escrevemos cartas a estranhos.
Para quem? O atelier é aberto a todos. Não é preciso ter experiência nem projeto de escrita em andamento.
Para quê? Este atelier é ótimo para quem quer desbloquear um projeto, ganhar intimidade com a escrita, expandir o vocabulário criativo ou simplesmente se reconectar.
Onde e quando? De 23/02 a 21/03, online e ao vivo pelo Google Meet. O encontros ficam gravados.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,




Li seu texto logo cedo, Surina. Fiquei tão tocada. Já tive esse encontro. Mais vezes do que gostaria, confesso. E a cada etapa, sempre algo se transforma. Pensei na tormenta, no telhado, na natureza. Tudo isso ressoa muito em mim. E, depois de ler, me emocionar e te sentir, ainda vi meu texto no final. Que honra 🌷 que bom que, pelo menos, todas essas experiências podem virar textos bonitos.
Jamais esquecerei o abraço da morte. Uma quentura gostosa, o dourado tomando conta da cena. Mas ali em frente, na outra cadeira, estava a minha mãe e eu mandei a morte ir ver se eu estava na esquina. Não podia morrer em frente à minha mãe.
Hoje, minha mãe já não tem mais corpo. Vive em mim. Será que na próxima visita terei a mesma atitude?
Nas cenas dos próximos capítulos.