#152.Lugares de alento
Uma lista de refúgios portáteis e gratuitos
Querida leitora, querido leitor,
Sento aqui na cadeira às cinco e meia da manhã com meu café com leite e a cozinha toda vomitada porque a Lillipot anda ruim do estômago. Está escuro do lado de fora. Às vezes a minha gata malhada caça ratos demais e fica com a barriga assim, entupida de dentes, ossos e pelúcia.
Foi fácil acordar porque o mundo hoje é feito de uma promessa. Estou escrevendo esta edição um pouco antes de sair para um pequeno retiro aqui nas redondezas. Uma das coisas maravilhosas da existência é o milagre, e o meu é este: de todos os lugares do planeta, o meu professor – que é tibetano - decidiu construir seu templo numa vila a cinquenta quilômetros da minha. Veja bem, eu vivo precisamente naquele lugar que ninguém quer visitar, no faraway de Portugal sem atrações turísticas, e acontece que agora tenho a chance de encontra-lo em abril e maio por aqui.
Ter a chance de mergulhar nas práticas é possivelmente minha maior fonte de alento, e neste mês de abril eu quero falar exatamente sobre este tema: lugares onde encontramos refúgio no meio da bagunça da existência. Semana passada comecei uma oficina de escrita com o J.P. Cuenca e ele nos apresentou uma imagem que tem sido muito útil do lado de cá. Alento é como desenhar e em seguida habitar um círculo que nos separa do inferno.
Esta capacidade nós temos. A de nos retirar daquilo que comprime, uma respiração de cada vez. Nem que seja por dois minutos. Nem que seja por um minuto. Há muitos tipos de refúgio. O refúgio maior, o refúgio dos meus sonhos, é uma mansão chamada Eu com um lago cheio de sapos e gatos pulando nas árvores onde habito perenemente na paz e amor. Enquanto a minha mansão particular não fica pronta (estou tentando, afinal de contas vou para o retiro daqui a pouco), existem outros mini-refúgios que ajudam.
Neste mês de abril, as edições do Sofá da Surina são sobre aquilo que dá alento. Semana passada falei sobre livros gostosos e sobre algumas edições de newsletters que me devolvem para casa. Na edição de hoje, trago para vocês alguns refúgios portáteis que não são de consumir. Pequenos gestos que nos devolvem para um refúgio cheio de vida, grátis. Voilà, meus queridos amigos. Divirtam-se.
Pequena lista de refúgios portáteis
Caminhar com consciência
Um passo de cada vez. Tocando a terra e percebendo como os pés equilibram o peso do corpo. Gosto de fazer um café com leite e sair para passear com os gatos de xícara na mão logo de manhã, aliás. Às vezes leio um trecho do livro do Thich Nhat Hanh sobre meditação em caminhada para me inspirar antes de pôr o pé para fora de casa. Aqui vai um deles para você:
Foot and Earth touch.
Bright sunflowers fill your eyes.
In the distance, thunder roams.
Sweet trickles down your cheeks.
Fully entering the world of birth and death,
our tears nourish all beings.
Transcending the world of birth and death,
our tears go nowhere.
(do livro Long path turns to joy - a guide to walking meditation)
Plantar uma roseira
Ou qualquer outra planta que você goste. Mas eu recomendo roseiras. Brancas, amarelas, cor de rosa, vermelhas. Há milhares de espécies e perfumes. Quando a primavera chega elas brotam e você pode fazer buquês enormes para dar de presente ou enfeitar a casa.
Prestar atenção na respiração por quinze minutos
Gosto de fazer deitada no sofá. Coloque uma mão no peito e outra na barriga - se preferir, pode ser as duas na barriga, também. Sinta o peito relaxar quando você volta a atenção para o ar que entra e sai. Na maior parte das vezes acabo dormindo.
Tirar uma carta do tarô
Só uma.
Escrever um diário
Não inventaram melhor forma de alento. Sentar diante do vazio e escrever para ouvir a própria voz registrada na página em branco organiza o caos interno. O melhor é fazer todo dia, se der.
Novidades: encontros do Sofá
Queridas leitoras e leitores, este Sofá é gratuito. Ele me dá muito trabalho e principalmente muitas alegrias. Uma alegria: me faz escrever toda semana. Outra alegria: escrever para vocês. Mais uma: ele me dá novos amigos e me ajuda a construir uma comunidade que se liga pela escrita.
Apesar de gratuito, o Sofá requer bastante dedicação aqui do meu lado, então ano passado criei uma campanha no Apoiase para que os leitores que desejam possam apoiar financeiramente o Sofá todos os meses e permitir que ele permaneça gratuito. (Você pode apoiar a partir de R$7 por mês!). Ano passado a vida me atropelou, mas agora finalmente inicio este novo projeto: os Encontros do Sofá.
Começando em abril, nos encontraremos mensalmente na última semana de cada mês pelo Google Meet - só estou decidindo ainda se vai ser na quinta à noite ou no sábado de manhã. Qual você prefere? Alguma sugestão?
Os Encontros do Sofá serão exclusivos para apoiadores e para as pessoas que estão fazendo ou fizeram as oficinas de Escrita Reconectiva comigo este ano, assim podemos juntar mundos de leitura e escrita. Bora? Esta é a lista de temas para os encontros do primeiro semestre (datas a confirmar):
Abril: vamos falar sobre rotina de escrita?
Maio: vamos conversar sobre newsletters?
Junho: vamos falar sobre rituais e prática criativa?
Julho: vamos passar uma hora escrevendo juntos? Mini-oficina de escrita reconectiva.
Agosto: vamos conversar sobre o que estamos lendo?
Bora se juntar?
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,




Um lugar de alento: o Sofá da Surina. Assim que a situação financeira melhorar (tá osso), serei apoiadora.
De todo jeito, desde já: obrigada por iluminar meus olhos e meus dias.
Panto roseiras e as formigas comem todas! Sigo insistindo, e acho que mais ganhando do que perdendo a batalha 😅