Porque sim
Processo criativo & a escrita irrenunciável
São quatro e meia da manhã e estou diante do computador. Nesta época do ano o pólen recheia os espaços invisíveis da casa, transportado no pelo dos gatos e nos ventos que entram pelas frestas da porta. Pólen é vida e acho que o meu espírito gótico não aguenta as cores da primavera europeia: para os brônquios contraídos, bombinha. Para os ataques de tosse, verticalidade.
Às vezes sento na cama e durmo sentada na cabeceira, mas não hoje. Os gatos estão enrolados na coberta. Na paz do escuro ainda sem sol, acaricio os bichos e sinto o amor líquido preenchendo os espaços vazios que a alergia não tomou. Eles se esticam; me afasto para não acordá-los. Faço preces rápidas, visto um casaco e me levanto para realizar o que me cabe: passar café com leite e escrever.
Não sei explicar. Diante da pergunta clichê que todo escritor já ouviu, por que você escreve?, minha resposta mais honesta é
porque sim. Uma resposta que não explica nada, eu sei. Uma resposta tão curta que ninguém diria que me toma as madrugadas, as manhãs asmáticas, o tempo livre, a
vida. Pelo menos por enquanto. Nunca se sabe.
Como é pra você? Não escolhi escrever. Pintar é diferente - foi a realização de um desejo adulto consciente aos trinta e poucos anos e disso tenho orgulho, muito orgulho. Mas escrever, veja bem, escrever é tarefa de outra ordem. Escrevo porque preciso.
Ser escritora, para mim, é condição. Sempre fui assim. Aprendi a aceitar esta condição e até a amá-la, mesmo com as as frustrações e desesperanças. Escrever não dá dinheiro e há sempre o inatingível, porque nunca escrevo como as minhas musas e musos, tipo Kazuo Ishiguro e Jeanette Winterson. Mas a escrita é uma amiga leal. Antiga, insistente, por ora irrenunciável.
O texto me persegue desde pequena. No sótão de casa, em Curitiba, meus pais guardam o registro da obsessão. Fica numa caixa com a etiqueta Les Enfants, o papel sulfite amarelado. A primeira história que escrevi foi um conto em terceira pessoa sobre uma vaca que reencarna em forma de árvore para viver entre passarinhos. É uma fábula bonita; algum dia vou publicá-la. A criança que eu fui ali, naquele texto. Escrever é encontrar uma espécie de aura. Datilografado e datado: por Mariana Carpanezzi, 1987.
E hoje, por que estou levantando às 4:30 da madrugada para escrever? Sinto-me confusa, o reino dos sonhos não desapareceu ainda, então escrevo escrevo escrevo, as ideias saindo em fluxo até os dedos ficarem lentos, cada vez mais l e n t o s. O café com leite esfria,
ufa, estou ganhando contorno de novo. Palavra por palavra, volto a mim. Agora sei melhor quem sou.
Não num sentido lógico, claro. Nunca sei direito quem sou. Mas os pensamentos selvagens que sobrevoavam a cabeça e zumbiam no coração quando acordei alérgica finalmente acharam um lugar. Meu mundo se arranja quando escrevo. Ao ganhar palavras, as impressões recebem atenção e se acalmam; elas agora cabem dentro do corpo, mesmo que seja em lugares meio provisórios. Quando escrevo, organizo o que acontece em mim.
Semana passada falei sobre meu processo de criação na pintura. Pintar é uma atividade de descanso durante a qual as imagens que esperam na minha mente são transportadas para o papel.
Com a escrita não é assim. Escrevo há trinta e nove anos; sempre deu trabalho. Às vezes vem com inspiração, às vezes sem. Não sei se sou boa para contar histórias. Mas arrisco contar. Para mim, mas não apenas. Porque escrever é contato e conexão: mesmo quando não mostro o que escrevi (a maioria dos casos), escrevo para você. Falo com você, que está do outro lado. Por que?
, porque sim, respondo. Há mágica nisto de escrever; alguns preferem chamar de insconsciente. Este é mais um dos mistérios da escrita. Posso me aproximar dele. Mas não me permito a blasfêmia de tentar entender.
Recomendações de leitura
Acabaram de sair dois livros bem legais:
A Prática da escrita, da Ana Rüsche, está em pré-venda! A Ana é amiga, professora, inspiração e este livro é muito útil para quem quer praticar a escrita e colocar a mão para caminhar no papel. Comprar na pré-venda é a melhor coisa que você pode fazer: aqui está o link. Se preferir, você também pode comprar a edição em formato Kindle.
Mal posso esperar para ler A Linguagem dos Desastres, da Fabiane Guimarães. Você está em Portugal? Se estiver, vamos nos encontrar no dia 4 de junho na Feira do Livro, em Lisboa? A Fabi vai estar por lá, e eu já encomendei o meu exemplar que está em pré-venda com desconto deste lado norte do Atlântico.
Maio no Sofá
É mês de processo criativo. Em maio, as edições do Sofá da Surina vão orbitar em torno deste planeta azul roial chamado criação. Começamos o mês com uma edição sobre pintura, e nesta semana o assunto foi escrita. Para fechar o mês, a próxima edição vai orbitar em torno de processo criativo e rituais.
“Escritas de passagem: narrar a viagem” - inscrições abertas
Estão abertas as inscrições para o último atelier de Escrita Reconectiva do semestre.
De 18/05 a 12/06 “Somos feito a passagem dos dias.” A observação do poeta japonês Matsuo Basho (1644-1694) é o nosso ponto de partida. O que é viajar? O que levamos na mala, qual o traçado da nossa passagem? Neste atelier exploraremos a ideia de viagem: a mala, o desconhecido, os rituais de travessia. Meios de transporte e a busca por horizontes. A partida como o antônimo da familiaridade.
Online pelo Google Meet. Segundas, terças, quintas e sextas das 8 às 8.30 (horário do Brasil)
PARA QUEM Aberto a todos. Não é preciso ter experiência ou projeto em andamento.
VALOR 200,00
Vamos falar de newsletter? Próximo encontro do Sofá: 23/05 (sábado), às 9h (horário do Brasil)
Queridas leitoras e leitores, este Sofá é gratuito. Apesar de não custar nadinha, o Sofá requer bastante dedicação aqui do meu lado, então ano passado criei uma campanha no Apoiase para que os leitores que desejem possam apoiar financeiramente o Sofá todos os meses e permitir que ele permaneça aberto. (Você pode apoiar a partir de R$7 por mês!).
As edições da newsletter são para todo mundo, mas os Encontros do Sofá são exclusivos para apoiadores quem está faz as oficinas de Escrita Reconectiva comigo este ano.
Na próxima edição dos Encontros do Sofá vamos conversar sobre newsletters. Bora se juntar?
*Apoiadores e participantes dos ateliers de escrita vão receber o link do Google Meet pelo email.
Mil desculpas pelos erros de ortografia e digitação que possam ter aparecido nesta edição; é que este Sofá é do começo ao fim escrito por humanos.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,





Eu gosto de porque sim. Acho que diz mais que qualquer explicação. :)
Surina, quero te encontrar na feira do livro de Lisboa! Vai ser uma emoção conhecer você e a Fabi Guimarães no mesmo dia! Amei o texto. ❤️