#146. Preciosa vida, preciosa morte
A chegada da Bijoux
1. Eu tinha preparado uma editoria bem redondinha para o mês de fevereiro, com três textos sobre o tema de se sentir em casa no mundo. Mas daí Bijoux chegou e perdi a vontade de escrever sobre qualquer outra coisa.
2. Bijoux apareceu no 17 de fevereiro, Dia Mundial do Gato e primeiro dia do ano novo tibetano. A mensagem do WhatsApp veio com a foto do filhote estropiado, um olho aberto e outro fechado, quer levar no veterinário comigo? Encontraram ontem, tá muito mal e ainda não sei quem vai cuidar. A próxima mensagem era a imagem de duas tênias muito maiores do que o bichano, vomitou isso aí ontem a noite, a amiga completou.
3. Durante a minha consulta anual, no meio de janeiro, a cartomante avisou que tinha boas notícias, vejo um gato aparecendo na sua vida. Não precisa procurar porque ele vai cruzar o seu caminho. É um macho cinza muito fofinho.
4. Bijoux é uma gata preta. Preto é quase cinza, fêmea é o lado avesso do macho e vice-versa, então coloco tudo na conta das aproximações oraculares. Respondo a amiga com a única mensagem possível. Vou com você, pode deixar que eu cuido dela.
5. Bijoux tem três meses, pesa 700 gramas e desde que voltou da consulta passa o dia dormindo na caixinha. Às vezes levanto-lhe a pata para ver se continua viva. Doutora Antônia tinha mesmo alertado: quando um filhote é resgatado em condições tão lastimáveis, é comum ficar os primeiros dias dormindo. Depois de tanto tempo em modo de sobrevivência, o sistema nervoso do bichano relaxa completamente quando reconhece que está num lugar seguro.
6. Penso sobre o tipo de vida que a Bijoux levou até ser encontrada vagando pelas ruas da Aldeia das Amoreiras. Onde é que dormia? Que tipo de comida arranjava? Faço cálculos no assombro. Se tem mais ou menos três meses, como diz a veterinária, então nasceu no meio das tempestades que lavaram Portugal este inverno. Os rios encheram, uma amiga teve a casa inundada e precisou se abrigar uns dias aqui comigo. Qualquer lugar onde os olhos paravam era enxurrada. Bijoux neném. Onde estava quando isso tudo aconteceu? Será que tem irmãos? Será que sobreviveram?
7. Se fosse para apostar, diria que os irmãos morreram. Invento a minha história. Bijoux era uma recém-nascida que vivia com sua família felina numa ruína na beira da Estrada Nacional 120. Tinha 40 dias quando os primeiros relâmpagos cruzaram o céu. A mãe, uma gatona vira-lata de porte siamês, pressentiu o fim do mundo e fugiu para se salvar. No dia seguinte, as chuvas começaram e o riu subiu, entrando pela porta. A inflamação no olho matou os irmãos em cinco dias, um por dia. No sexto dia, Bijoux miou para espantar a Morte até ficar rouca no frio da ruína mofada. No sétimo, saiu andando sem direção. No oitavo, chegou cambaleante e se jogou exausta nas latas de lixo da Aldeia das Amoreiras. Viveu ali um mês até ser avistada pela Meki, que tinha saído pra comprar um chocolate pro filho sem imaginar que cruzaria uma gata preta no caminho.
8. Passo a mão na Bijoux e encontro pouco recheio. Consigo sentir a espinha, os ossos do pescoço e os quadris. Às patas falta carne e os pés são minúsculos como os de um recém-nascido. Quando acaricio meus gatos, tem sempre aquela gostosura, aquele pelo sedoso, aquela barriga mole. Acariciar a Bijoux é tipo acariciar um esqueleto. É como acariciar a morte. Bijoux é minha caveira de estimação.
9. Não posso dizer com certeza qual dimensão ela habita, mas certamente não é a mesma que a minha. Os olhos dela ficam perdidos num lugar que não é dentro nem fora, atravessando as fibras do tempo-espaço. Hoje fez sol, o primeiro em três meses, o primeiro que ela já viu. Bijoux caminha até a porta de vidro. Com o fio de energia que sobra, segura a cabeça ereta e se senta olhando para fora. Fica mais de uma hora ali, parada. O sol da Bijoux é um país inteiro habitado por novas criatura: calor, luz.
10. Na verdade eu sei a dimensão onde ela vive. A Bijoux é uma habitante da morte. Andava por aí no vale dos mortos com o corpo emprestado para a vida enquanto vermes maiores do que ela a comiam por dentro e a anemia a dissolvia em gengivas descoloridas. Bijoux fez o caminho contrário: nasceu para morrer em seguida. Agora Bijoux está morta pela metade porque apareceu o sol. A veterinária disse que ela tem grandes chances de sobreviver. De dentro da morte, Bijoux olha pela janela. Olha lá, filhotinha. Tem uma vida inteira te esperando. Tá vendo? É o sol.
Recomendações: livros de gatos
O nome da Bijoux veio do personagem principal do livro infanto-juvenil Sete Bruxas e um Gato Temporário, da incrível Índigo Ayer.
Aliás: o livro da Índigo está ganhando uma continuação que acabou de entrar em pré-venda: corre lá!
Meu livro de gato preferido de todos os tempos é Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa, publicado no Brasil pela Alfaguara.
Atelier de Escrita Reconectiva - última chamada
O primeiro atelier de Escrita Reconectiva começa na segunda, dia 23 de fevereiro, e vai até 20 de março. Já somos muitas na turma e acho que vai ser bem lindo. Vamos?
Reconhecendo o nosso jardim interior - este é o tema do primeiro atelier de Escrita Reconectiva de 2026. O que ilumina e o que assusta: aqui, todas as nossas partes são bem-vindas.
Um pouco por dia. Escrevemos juntos meia hora por dia, quatro dias por semana, sempre de manhã (das 8 às 8.30, horário de Brasília). A cada encontro eu proponho um ou mais exercícios curtos nos quais exploramos nossa experiência e criatividade.
Online e ao vivo, pelo Google Meet. Precisou faltar? Não tem problema. Os encontros ficam gravados.
Para quem? O atelier é aberto a todos. Não é preciso ter experiência nem projeto de escrita em andamento.
Para quê? Este atelier é ótimo para quem quer desbloquear um projeto, ganhar intimidade com a escrita, expandir o vocabulário criativo ou simplesmente se reconectar.
R$200
O Sofá da Surina é escrito por um ser humano (eu!) com a ajuda místico-emocional de gatos e sem qualquer recurso à inteligência artificial. Faça o favor de perdoar, então, as pequenas falhas gramaticais e os erros de digitação. Amamos a revisão e a edição dos textos, e temos ainda mais orgulho de tudo que continua imperfeito destes lados.
Ah! E que vocês sejam muito felizes, sempre. Até a próxima,




Surina, sua descrição do que pode ter sido a aventura de Bijoux mexeu com tantas coisas aqui dentro e roubou-me umas lágrimas. Obrigada...
Torcendo pela Bijoux logo estar por completo ao lado do Sol, com pelo sedoso e umas dobrinhas.
Leio tua carta enquanto tomo café, com a filhote de velociraptor que habita minha casa no colo 🐶
Um beijo, querida!