#140. Sem samsara não há nirvana
Sem sofrimento não há Buda
Toda vez que vou ao Mahaboddhi, templo onde fica a árvore sob a qual o Buda se iluminou, tenho que passar na frente de duas barraquinhas de momo – uma espécie de pastel cozido no vapor – com recheio de mutton. Na frente das barracas há uma dúzia de cabritos filhotes comendo suas folhas de couve. O de orelha branca brinca, solta berros de neném, e logo acima da sua cabeça, num gancho metálico, fica o corpo
morto e sem pele
de um dos seus pequenos irmãos. Amanhã, quem sabe, será a vez dele. Tudo depende das vendas. É que mutton (eu não sabia) é o termo em inglês para cabrito filhote. Ali, na barraquinha, o dono cria-mata-vende os pasteizinhos recheado com a carne dos bichos.
Assim como o samsara, na barraca de momos do Mohammed, em Bodhgaya, nascimento sofrimento morte vão embalados num pacote só. Enquanto houver clientes, o negócio continua andando bem.
Fico nauseada quando tenho que passar por aquela esquina, mas não tem outro jeito porque só existe um caminho para o Mahaboddhi. Procuro não olhar para a vendinha, mas ela agora me persegue. O problema dos segredos revelados é este: uma vez que você os vê, não dá mais para desver. Depois que descobri a verdade sobre aquilo que o destino lhes prepara, as cabras filhotes que eu adorava encontrar em todas as partes de Bodhgaya viraram a sombra onipresente de um gancho metálico suspendendo um corpo sem pele.
Não que seja exclusividade de Bodhgaya, claro. O que dizer dos pratos de vitela que estão no cardápio de restaurantes do mundo todo?
Mas continuemos, pois. Além dos momos de mutton, há aqui outros tipos de maldade, produzidos especificamente para a mente dos budistas que peregrinam do mundo todo para ver a Boddhi Tree. Há, por exemplo, o homem na frente do templo Mahaboddhi com uma gaiola cheia de passarinhos roubados da natureza. O que ele vende aos praticantes budistas é a liberdade dos bichos: você pode pagar para libertá-los em troca de uns trocados e do bom karma de liberar vidas. É uma distorção tão horrenda que todas as vezes que encontro o homem eu não me aguento, digo que ele está errado, que aquilo não é correto e ele me responde com um
silêncio. É um senhor velho que não entende inglês.
Nos meus sonhos selvagens, avanço sobre ele, abro a gaiola e os pássaros saem voando pelo céu azul, onde o meu espírito
se desaprisiona
, enfim.
No budismo Vajrayana (ou tibetano), dizem que todos os Budas que existiram e existirão vão alcançar a iluminação em Bodhgaya sob esta mesma árvore cujas folhas, muito precisamente, têm formato de coração. Estes dias estava pensando como seria se ela estivesse num outro lugar.
Pensei na Boddhi Tree em Las Vegas. Se estivesse no coração materialista do mundo, em vez das guirlandas de flores amarelas ela estaria toda enfeitada de néon. Se fosse em Las Vegas, os praticantes poderiam pagar um pouco mais para sentar numa sala VIP com a melhor vista para a árvore e meditar numa almofadinha térmica tomando chá orgânico aromatizado com o mais puro corporativismo americano.
Só que a árvore mais linda do mundo está no estado mais pobre da Índia. E para chegar ao nirvana do templo, é preciso passar pelo sofrimento da barraquinha de momos de mutton do samsara.
Quando ainda era príncipe, Buda Shakyamuni vivia num palácio e era feliz lá dentro. Foi só quando cruzou os muros que descobriu o sofrimento sob a forma de morte, velhice e doença. Segundo a lenda, ele desmaiou e decidiu sair pelo mundo tentando achar um jeito de resolver a questão da dor. Não fosse pelo sofrimento, teria virado rei. Sem sofrimento, ele não teria se sentado sob a árvore e se transformado no Buda.
Dá para ser feliz vendo tanto sofrimento em volta? Esta é a pergunta que sempre me volta. É porque eu quero ser feliz, confesso: desejo que o meu coração possa levitar enquanto eu estiver aqui, vestida deste corpo que eu chamo meu. E pelo que sei, não dá pra contar com a ausência do sofrimento - enquanto eu estiver viva, sempre vai ter alguém sofrendo por aí, seja eu, um conhecido ou um lindo cabrito neném.
O Buda diz que sim, que é possível ser feliz aqui sem ter que fingir que o sofrimento é de mentirinha, e ao mesmo tempo sem ser soterrada por ele. O Buda diz que o sofrimento pode virar sabedoria e pode virar ação, também. Em todas as representações, ele é calmo, vive cercado de gente, resolve pepinos mil e ainda por cima sorri sob a árvore das folhas de coração. É a promessa de que eu, também, posso conseguir lidar com o sofrimento que me aproximou dele.
Pensando bem, o único lugar em que a árvore da iluminação poderia estar é exatamente aqui.
Dezembro no Sofá
Terminar 2025 com ternura. Neste dezembro, as edições do Sofá são dedicadas a histórias que dizem sobre encontrar a nossa casa no mundo - relatos de conforto escritos por alguém que está há três meses longe de casa. Como estou imersa na Índia e (semana que vem!) Nepal, espere um mês de textos bem budistas.
Recomendação e notinha
Como recomeçar do nada é provavelmente o texto mais bonito que você vai ler hoje, e por isto é a única (e preciosa) recomendação desta edição do Sofá.
Em janeiro vou oferecer uma nova edição do atelier de Escrita Reconectiva. O workshop é online pelo Google Meet, ao vivo, e tem duração de um mês: escrevemos 30 minutos por dia, 4 vezes por semana, com exercícios inspirados em práticas contemplativas & mindfulness. A ideia do atelier é usar a escrita como porta para entrarmos em contato com a nossa mente de forma amorosa. Os detalhes de datas, inscrição e valores vão estar aqui na edição do Sofá da semana que vem.
Neste natal, apóie o Sofá da Surina
Meus livros são ótimos presentes! O mundo sem anéis - 100 dias em bicicleta e o 108, com entregas para todo o Brasil. Eles também estão disponíveis em formato Kindle (108 aqui e O mundo sem anéis aqui).
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A história do homem que vende a liberdade vai ficar comigo. E os cabritinhos, meu Deus
NAo conseguido divulgar seus textos no LINKDIN E AS VEZES também NO FACE !!!!