#142. Ser maioria
Boudha & a sensação de pertencer
Estou há um mês em Kathmandu, mais especificamente no bairro de Boudha, e este é um dos únicos lugares da Terra onde sou maioria. Nem na Índia, nem no Nepal, nem na grande Kathmandu. Só em Boudha eu sou regra, em vez de exceção.
Aqui em Boudha, o menu de qualquer restaurante é vegetariano com algumas opções para a minoria carnívora. Não tenho que explicar minha dieta nem apelar para o terrível omelete. Cruzo pessoas na rua recitando mantras esquisitíssimos que reconheço porque já os recitei milhares de vezes. Mercearias vendem ervas moídas por quilo para práticas que faço e que farei, se tudo der certo; as estátuas de deidades são vermelhas verdes azuis amarelas num mar bordô de monásticos da minha tradição, e por que
por que?
É porque neste bairro fica a estupa de Boudhanath, um monumento sagrado para os budistas da tradição tibetana. O Buda nasceu e morreu no que hoje é o Nepal, e a estupa contém relíquias do iluminado, além de vários outros itens de grande valor espiritual.
Mas esta edição do Sofá não é sobra a estupa. É sobre a estranha sensação de me sentir maioria.
Tento lembrar de outros lugares nos quais o budismo tibetano é religião majoritária. Além deste bairro, sou maioria religiosa no Butão, na região indiana de Sikkim e em Dharamshala, capital do Tibete no exílio. (Será que estou esquecendo mais algum?) Dada a falta de autonomia, acho que me sentiria maioria, mas uma maioria sem muita liberdade, no planalto tibetano dos dias de hoje.
Há muitas formas de pertencer, mas nunca antes eu havia pensado no que significa ser maioria religiosa, nem na ligação entre religião e cultura. Ser maioria é: você entra no café pra escrever e os quadros na parede são pinturas de snow lion, um animal místico dentro da sua tradição. No café há uma mini biblioteca para clientes. Você passa os olhos e todos os livros te interessam. Há livros em tibetano, uma edição de bolso do Philip Roth e manuais gorduchos em inglês com ensinamentos que você sempre teve curiosidade de entender. Metade das mesas é ocupada por monásticos vestidos de bordô conversando com monásticos de trajes amarelo-ocre, e você pensa, ah, talvez eles possam me ajudar com aquela parte da prática em que estou encalhada há um ano e meio.
Então é assim que uma insider se sente? Isto é ser maioria, descubro - descobrindo, simultaneamente, que fora daqui sou minoria. Ao cruzar o portão colorido que separa o bairro de Boudha do resto do mundo, me destransformarei de Superman na outsider que me acostumei a ser, sem saber exatamente que era.
Não que seja ruim. É bem bonito, e é trabalhoso. Ser outsider é ser um lugar ambulante. Snow lions, práticas esquisitas e mantras irrecitáveis habitam um quarto colorido e secreto que poucas pessoas visitam. É um quarto limpo com cheiro de incenso e flores que troco todos os dias. Este quarto se chama Dentro de Mim.
(Acredito que somos todos outsiders, de alguma maneira. Acredito que todos estamos à procura do nosso lugar no mundo.)
Em Boudha me aconteceu um fenômeno: o meu secreto e precioso quarto interno, muito interno, agora também está fora do meu corpo.
De vez em quando aparece um lugar geográfico que espelha o nosso mundo íntimo. Por um instante, alguns dias, um mês, um ano, o mundo externo e o interno se sobrepõem e a gente
respira.
Enquanto isso, a estupa com olhos de Buda me olha das quatro direções. Enquanto isso, a estupa fala comigo. Estou aqui, ela diz, com sotaque nepali, portanto calmo portanto grave portanto suave portanto melodioso, em qualquer direção que você olhar. Estou aqui para te lembrar. Você pode continuar olhando para fora, porque estou aqui quando você esquecer. Estou aqui, querida, porque sou o seu quarto interno e sou a sua mente. Estou aqui porque eu vivo em você.
Onde fica a sua casa?
Novidades 2026 - atelier de Escrita Reconectiva no primeiro semestre
Quando No primeiro semestre vou oferecer três ateliers de Escrita Reconectiva, um diferente do outro. Cada atelier dura um mês - o primeiro começa depois do carnaval, no dia 23 de fevereiro.
Combinando escrita com mindfulness Nos ateliers de Escrita Reconectiva, usamos a escrita para entrar em contato com a nossa própria experiência - ideias, sensações, pensamentos, emoções - de forma amorosa. Criei os ateliers de Escrita Reconectiva combinando a prática de escrever com as instruções ligadas à meditação shamata (mindfulness) e com a reflexão busita sobre compaixão.
Online, das 8 às 8:30am do Brasil Em sessões de meia hora, quatro vezes por semana, sentamos juntos e acolhemos nossa experiência por meio de exercícios de escrita que nos permitem entrar em contato com o nosso jardim interior.
Não é preciso ter experiência de escrita
Não é preciso ter projetos de escrita em andamento
3 ateliers
Fevereiro/Março - Turma 1 – Escrita Reconectiva – Descobrindo o nosso jardim interior (23 fevereiro – 21 março)
Abril - Turma 2 – Escrita Reconectiva – Preciosa vida, preciosa morte – escrevendo a impermanência (Abril)
Maio - Turma 3 – Escrita reconectiva – Somos passagem – narrativas de viagem (9 de maio - 5 de junho)
Detalhes e inscrição para a Turma de Fevereiro/Março por aqui:
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,





Seu texto me lembrou da experiência que tive logos nas primeiras aulas do curso de Psicologia Transpessoal: eu, tão acostumada a ser o que se chamaria de “normal” (sou professora, funcionária pública, tenho mestrado e doutorado etc) me vi numa turma em que eu era “a-normal”. Uma outsider, como você disse. Lá a maioria dos meus colegas era terapeuta holístico, professor de yoga ou havia tido experiências de alteração de consciência. Uma das colegas morava numa comunidade matriarcal no interior da Bahia e mais de uma vez apareceu na tela do zoom com o rosto pintado. Foi uma experiência de deslocamento incrível e necessária! Porque afinal acabei descobrindo que eu não sou tão “normal” assim.
Feliz 2026 ⭐️ Aproveite muito essa sensação! Que esse céu azul siga te acompanhando ao longo dos dias 💙