#162. Vazios
Descanso para criar
De repente ficou tudo muito vazio. Não sei explicar. Acordei com fome, como acordo toda manhã, preparei o café com leite e sentei para escrever, só que quando olhei para a tela do computador o arquivo em branco do Word me devolveu vácuo.
Uma pincelada grossa de cinza tom médio. Juro pra você, a ausência pode ser mais pesada que uma bigorna. Meu cérebro era um pen drive formatado: eu tentava buscar uma imagem, uma frase, um começo, e tudo que ele me devolvia era uma massa mal rebocada de Nada. O sol ficando mais forte pela janela da cozinha. Eu, de calça cor de rosa e top cinza sem conseguir encontrar nem mesmo a ponta de um fio por onde uma frase ou uma história podiam começar.
Aí veio a dor na lombrar e na cabeça. Impositivo, o vazio era uma ordem, deserto de Arrakis dentro da caixa craniana. Daqui não brotará hoje uma única flor, nem adianta tentar. Desorientada por não saber ser quem eu era na rotina de todas as manhãs que agora me escapava, sobrou obedecer aquilo que o corpo queria. Levantei e fui beijar o Haiku, que dormia no sofá com sua bela barriga peluda de pintinhas pretas virada para o teto.
No início pensei que o vazio era só uma ilha, mas em pouco tempo descobri que se tratava da Pangeia, o continente sem bordas que tomava o nosso planeta antes do mapa múndi ser como é hoje. A falta de assunto continuou no dia seguinte, e no seguinte e no seguinte. Ao fim do quarto, concluí: não era uma indisponsição momentânea. Eu estava diante de uma condição médica nova e toda minha: a Síndrome do Cérebro Formatado.
Isto aconteceu há duas semanas, e você deve ter reparado que durante este tempo as edições semanais do Sofá da Surina não foram enviadas. Simplesmente não consegui.
Será que não é bloqueio criativo?, uma amiga sugeriu. Discordei na hora. Sou expert porque já tive muitos; meu último e mais longo durou quatro anos. A sensação do bloqueio criativo é diferente, pelo menos para mim: quando estou bloqueada, quero criar mas não consigo. É uma tortura, as semanas passam e você fica ali, desesperada, lutando para remover ou pelo menos identificar o invisível obstáculo imaginário que te impede de dar forma à sua paisagem interior.
Desta vez foi diferente - não teve sofrimento agudo. Era mais uma exaustão. Alguém colocou uma placa de Acesso Proibido na entrada do jardim da minha imaginação e depois de alguns dias eu simplesmente recuei. No lugar de tentar engembrar um texto já condenado ou pintar uma obra sem vida, decidi fazer outras coisas como se aquele deserto criativo nem fosse problema meu.
Foi uma experiência interessante sair de mim e não ser artista nem escritora por uns dias. Veja bem, ser artista é uma benção e uma maldição. Você não tem ideia do tanto de roupa suja que fica acumulada aqui em casa porque todo meu tempo livre eu quero usar para fazer um esboço, trabalhar num capítulo do livro novo, anotar uma ideia que apareceu para a nova série de pinturas em que estou trabalhando. Ser artista é uma dádiva linda que nos torna egoístas e abnegados ao mesmo tempo. Ser artista é uma coisa que satisfaz e acalma enquanto deixa um comichão constante de ideias mastigando sob a pele.
Mas como eu dizia, aproveitei que a minha cabeça estava bem vazia e tirei férias de ser artista. Fiz umas coisas novas e bem ordinárias que eu nunca tinta tentado antes, tipo construir uma parede no quarto de trás e pintar da cor romã. Reli Never let me go, caminhei com os gatos e voltei a pedalar longas distâncias. Comecei - e concluí! - inúmeras faxinas e arrumei o guarda-roupa. Lavei as roupas coloridas separadas das brancas, lavei as calcinhas separadas das meias. Uma verdadeira revolução.
Dormi à tarde. Li o tarot para mim e para uma amiga americana que veio passar uns dias aqui. Pintei o Buda Samanthabadra, uma vontade antiga que eu vinha adiando. Samanthabadra é um Buda azul e nu. Ele é a própria natureza da mente, vasta, sem limites nem marcadores, um céu. Esta foi a única autorização que recebi para entrar dentro da minha Imaginação neste tempo, mas era quase como se fosse uma pequena licença poética e depois que dei a última pincelada voltei à vaca fria sem um esboço de nada sequer.
Foi bom descansar. Eu precisava de tempo para pintar parede. Estou com mensagens atrasadas; amanhã eu respondo. Eu precisava pedalar com as minhas lycras novas. Eu precisava beijar gato, eu precisava assar bolo, eu precisava instalar uma máquina de lavar aqui em casa. Eu precisava de qualquer coisa que não fosse linguagem, que não fosse elaborar ideias, que não fosse raciocínio, que não fosse uma criação complexa. Eu precisava da diástole mais do que da sístole, eu precisava do ponto morto e do meu corpo morro abaixo descendo só na banguela.
Eu precisava sem saber que precisava. Eu precisava do espaço vazio. Acho que a Síndrome do Cérebro Formatado é, na verdade, um cansaço de linguagem.
Me pergunto se outras pessoas sentem algo assim. Você já sentiu? Não sei explicar o que aconteceu. Tenho um par de teorias mas nenhuma resposta. Uma delas é a de que muita coisa mudou no último ano e o meu interior precisava de espaço vazio para começar a imaginar um mundo diferente.
Outra teoria é a de que estamos tão saturados de informação e imagens e versões de tudo que o nosso sistema humano simplesmente não aguenta - de vez em quando ele simplesmente desliga para garantir a própria sanidade.
Aí o seguindo domingo chegou e me deu vontade de abrir o arquivo do Word no qual escrevo as versões Sofá. Minha alma cabia exatamente dentro do meu corpo, estou de volta, pensei. Não tinha sobre o que escrever, mas isso não era um problema. Já curada da Síndrome do Cérebro Formatado, escrevi sobre ele.
Semana que vem, se nada sobrenatural acontecer, o Sofá estará de volta, semanal como toujours. Obrigada por estar aí do outro lado, quando deste aqui tudo é vendaval. Ser artista é bem bom, afinal.
Vamos escrever juntos? Sábado que vem tem Encontro do Sofá
Queridas leitoras e leitores, este Sofá é gratuito. Apesar de não custar nadinha, o Sofá requer bastante dedicação aqui do meu lado, então ano passado criei uma campanha no Apoiase para que os leitores que desejem possam apoiar financeiramente o Sofá todos os meses e permitir que ele permaneça aberto. (Você pode apoiar a partir de R$7 por mês!).
As edições da newsletter são para todo mundo, mas os Encontros do Sofá são exclusivos para apoiadores quem está faz as oficinas de Escrita Reconectiva comigo este ano.
Na próxima edição dos Encontros do Sofá vamos escrever juntos dentro da proposta dos ateliers de Escrita Reconectiva. Prometo que vai ser divertido. Bora se juntar?
QUANDO Sábado, 25/07 às 9h (horário do Brasil)
COMO Apoiadores e participantes dos ateliers de escrita vão receber o link do Google Meet pelo email.
Sabia que eu tenho dois livros publicados?
E eles são lindos. Quer apoiar este Sofá? Você pode comprar meus livros por aqui:
O mundo sem anéis
108
Mil desculpas pelos erros de ortografia e digitação que possam ter aparecido nesta edição. É que este Sofá, do começo ao fim, é escrito por humanos.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,






Te ler enche o peito de ar fresco, Surina.
Surina terminei de ler seu livro 108 e agora estou lendo o mundo sem anéis. Eu queria te dizer que sua escrita é diferente de tudo o que eu já li, sua escrita ela me faz companhia é um sentimento que não sei explicar bem... Desejo te ler por uma vida inteira. Tire férias, mas sempre volte.