#160. A Torre
Sushi, tarot e a disruptura do recomeço
Por falta de pano mais nobre, estendo no chão da varanda a toalha cor de rosa que acabou de sair da lavanderia e abro a caixinha de madeira. É tudo meio delirante, faz 40 graus e não durmo há três semanas. Embaralho, corto, estendo as cartas do meu Tarot Mágico dos Gatos e pergunto, por favor, me diga se vai melhorar. Minha mão não pensa, ela sabe exatamente o que escolher.
Aproximo a carta de mim e a viro com a fome dos desesperados só para encontrar a imagem de um gato de boca aberta com o mundo desmoronado pegando fogo por trás. A temida, a terrível, talvez a pior carta do Tarot. A Torre, carta da destruição inevitável.
Será que destruí a paz do meu lar adotando um novo filhote peludo? Estou exausta e não aceito, me ajuda a esclarecer, Senhor Tarot? Escolho uma segunda carta. A imagem agora é a de um gato sem pelo com um fundo de correntes. O Diabo.
Tipo, não pode ser. Mais uma pergunta. Meus gatos vão se acostumar com a chegada do Sushi algum dia? Terceira carta: A Morte.
Descobri com a chegada do Sushi: tenho medo de oráculos.
No vídeo fofo da internet, um gatinho preto e branco neném todo assustado se esconde no canto do corredor enquanto o residente mais velho vem conhecê-lo. No começo eles estão incertos, não sabem bem. O bebê se encolhe. O mais velho se aproxima com a pata. Corta.
Agora o gato neném cheira o mais velho, eles se cumprimentam com um beijo de nariz. Corta. É noite: os dois correm, pulam, o gatinho menor se aninha para dormir na companhia do outro. Corta para a última cena. Os dois gatos, agora adultos, são inseparáveis, passeiam, comem, dormem juntos. Título do vídeo: o efeito do segundo gato.
Penso em como seria o vídeo da vida real aqui em casa. Sushi sai para encontrar os gatos depois de três semanas separado no quarto. Ao vê-lo, Haiku dá patadas na fuça do bicho e tenta atacá-lo em seguida. Lillipot grunhe e sai correndo. Recolho o Sushi e prossigo com breves encontros graduais, seguindo exatamente as prescrições de integração felina. Uma semana depois, Haiku abre a boca e não consegue miar. Levo no veterinário: está rouco de stress. Come mal. Não aceita nem churu.
Lillipot, por sua vez, sai de manhã e passa o dia inteiro no vale. Quando volta, à noite, não entra mais em casa. Emagreceu e precisa ser alimentada na varanda, que é onde passou a dormir. Está rouca também, tomando anti-inflamatório. Mamãe te ama, Lilly, tento abraçá-la, mas desde que conheceu o Sushi ela criou este hábito quando vou fazer carinho. Se afasta do meu abraço, filhinha, por que você está fazendo isso com a mamãe?, mas ela segue andando e levanta o rabo para me responder com a sua nova mensagem preferida: aqui pra você o meu belo cu.
Descobri com a chegada do Sushi: sou melodramática.
E o Sushi?
De todos, é o único que está bem. Sushizinho anda ótimo, obrigada; Sushizinho não está nem aí. É o segredo da sua felicidade.
Abro a porta e o filhote de dois meses e meio sai correndo, sobe na árvore e não consegue descer. Deixo ele lá. O tempo que passa em cima da árvore é o meu breve momento de paz. Aproveito para lavar a louça. Quando a choradeira fica pesada, saio da cozinha e corro com a cadeira de plástico debaixo do braço para descer o bicho, que sai correndo ao alcançar o chão como se nada tivesse acontecido. O Haiku, que assiste tudo de baixo, aproveitar para dar-lhe umas patadas imediatamente, o persegue e depois vai embora para se esconder do filhote chato. Sushi corre atrás dele. Ele ama o Haiku. Vamos brincar?
Quanto a mim, só penso: bem que o Sushi podia dormir agora para eu pintar uma obra grande que anda na minha cabeça há um mês.
Descobri com a chegada do Sushi: não ter filho foi a escolha certa. Adoro ser tia, não tenho paciência para ser mãe. Porque na pior das hipóteses, daqui a três meses este gato já estará crescido e não vai precisar tanto de mim.
Às vezes me pergunto por que, exatamente, decidi adotar mais um gato. Eu podia estar descansando e indo para a praia neste calor. Podia estar pintando ou assando um bolo. No lugar disso, estou gastando dinheiro com gatos doentes no veterinário.
Então lembro que adotei o Sushi porque meu terceiro gato era compartilhado com uma amiga e foi viver com ela. Haiku perdeu o companheiro. Lillipot, sua irmã, não o suporta. Em vez dos rolês noturnos com o brother noite adentro, comecei a notar o Haiku brincando sozinho com grilos na varanda. Aquilo me pareceu tristíssimo. Precisamos de mais um membro na família, concluí.
Mas a gente não sabe. A gente acha que sabe, mas não dá para dizer que a gente entende exatamente como os outros estão se sentindo. Talvez a tristeza seja minha, não dele. Quase certamente a tristeza é minha. Descobri com a chegada do Sushi: a gente sabe menos do que acha que sabe.
Tenho vontade de as coisas serem como eram antes. Tenho saudade da minha paz e especialmente tenho saudade de dormir com a Lillipot na cama. Decidi: se a integração não der mínimo sinal de avanço na próxima semana, vou começar a procurar uma nova família para o Sushi enquanto ele é filhote e adaptável.
Espero que não seja preciso. Olho para Sushi, que me olha de volta com os pequeninos olhos japoneses. Algo está diferente aqui em casa. A vida virou meio que um inferno, mas pelo menos deixamos de ser os mesmos. A gente podia ficar fazendo a mesma coisa para sempre, mas agora temos que lidar com esta criatura. E esta é uma criatura sem medo que sobe em árvores mesmo sem saber o que vai acontecer depois.
Espero que o Sushi fique conosco. Depois do divórcio, eu achava que recomeçar ia ser meio que nem aquele vídeo do efeito do segundo gato, mas bem que a verterinária alertou: em 95% dos casos, gatos que convivem não viram melhores amigos. O novo é fedorento, disruptivo. Mesmo que o Sushi encontre uma nova família, nada vai ser como era antes.
Descobri com o Sushi: a gente sabe mais do que acha que sabe.
Junho no Sofá & 1 recomendação
É tempo de Sushi aqui em casa. Adotei um novo gatinho no mesmo dia em que (finalmente) assinei os papéis da separação. Neste mês, as edições do Sofá da Surina contaram histórias sobre o Sushi para falar de Recomeço. Na primeira edição, escrevi sobre medo e recomeço e na semana passada o assunto foi a relação com o espaço. Por fim, aproveitei para falar sobre disruptura no processo de se abrir para o que é novo e diferente.
E por falar em tarot: a Fabiane Guimarães acaba de lançar A Linguagem dos Desastres, terceiro livro dela que sai pela Alfaguara. A protagonista está ligada ao tarot, o livro é muito bom e ainda por cima se passa em Brasília.
Vamos falar de rituais de escrita? Sábado que vem tem Encontro do Sofá do Sofá
Queridas leitoras e leitores, este Sofá é gratuito. Apesar de não custar nadinha, o Sofá requer bastante dedicação aqui do meu lado, então ano passado criei uma campanha no Apoiase para que os leitores que desejem possam apoiar financeiramente o Sofá todos os meses e permitir que ele permaneça aberto. (Você pode apoiar a partir de R$7 por mês!).
As edições da newsletter são para todo mundo, mas os Encontros do Sofá são exclusivos para apoiadores quem está faz as oficinas de Escrita Reconectiva comigo este ano.
Na próxima edição dos Encontros do Sofá vamos conversar sobre rituais de escrita. Bora se juntar?
QUANDO Sábado, 27/06 às 9h (horário do Brasil)
COMO Apoiadores e participantes dos ateliers de escrita vão receber o link do Google Meet pelo email.
Sabia que eu tenho dois livros publicados?
E eles são lindos. Quer apoiar este Sofá? Você pode comprar meus livros por aqui:
O mundo sem anéis
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Mil desculpas pelos erros de ortografia e digitação que possam ter aparecido nesta edição. É que este Sofá, do começo ao fim, é escrito por humanos.
Semana que vem é o último do mês, tempo de descanso do Sofá. Nos vemos no dia 04/07.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,





a torre é destruição, mas também acena com a possibilidade de se começar algo novo, recomeçar a partir dos escombros. pensando bem, a vida é isso.
A carta da Torre me faz pensar em um trecho do Machado de Assis: " é melhor cair das nuvens do que do terceiro andar".
Torcendo para que Sushi possa encontrar seu lugar !