#165. Botão de eject
Sair de si para começar de novo
Comprei dois macacões pretos num brexó online. São sóbrios, da minha marca preferida, e a vendedora indica: praticamente novos. Também joguei fora as botas beges que furaram na ponta, e no lugar delas comprei, também nos usados, um par de botas punk com solado tratorado para pisar mais firme no inverno do futuro.
Mudei os móveis do quarto e me desfiz de metade das roupas. Sei lá, parecia que elas estavam no corpo ectoplásmico de um fantasma que já partiu daqui mas queria continuar se vestindo de mim. Não é que eu tenha muitas roupas, e além de tudo elas estragam rápido aqui, desbotadas-furadas-manchadas pelo pó e pela lama do Alentejo. O vestido cor-de-rosa de babado foi para a doação. O canelado creme, comprido, para a amiga que está esperando um bebê.
Mês passado comprei uma máquina de lavar no mercado das pulgas da vila. Custou cento e trinta euros e pôs fim a seis anos de caríssimas idas à lavanderia com sacolas imensas penduradas nos ombros. Agora consigo lavar separado as roupas brancas das pretas, as calcinhas das meias. Os panos de prato estão todos com cheiro de flores do campo. Uma revolução.
Encomendei cinquenta ripas de madeira do tamanho certo, lixei uma por uma, envernizei com óleo de linhaça e construí uma divisória japonesa de três metros de comprimento por dois e meio de altura para delimitar o espaço do meu atelier na parte de trás da casa. Era onde ficava o workhop do meu ex-marido. Na outra metade do salão, construí uma parede de gesso com um amigo, instalei uma porta e pintei tudo de vermelho. Respirei satisfeita com a mini-vingança. A casa nunca teria uma parede imensa bordô na minha época de casada.
Voltei a pedalar. Fazia três anos que eu não subia na bicicleta. Agora faço sessões longas com a bike de estrada que está comigo desde 2012. É de uma marca boa e tem a geometria perfeita para o meu corpo. Acredito no que dizem os caras do Kraftwerk: um ciclista em cima da sua bike de estrada é a fusão perfeita entre homem e máquina.
Quatro vezes por semana, pedalo 20, 30, 40km ouvindo uma playlist que tem LCD Soundsystem, Madonna e Kraftwerk, claro. Comecei a tomar suplementos. Tomo whey, creatina, magnésio, vitamina B12. Afinal de contas, são quinze anos vegetariana. Nos pedais mais longos, encho o bidon com uma mistura de maltodextrina e sais minerais. Parei de ter cãibra.
Não sei bem onde estive nos últimos três anos. Para suportar um relacionamento ruim, é preciso mandar uma parte nossa para o exílio numa ilha distante. A parte que fica tem que aguentar a dinâmica enlouquecedoura do casamento falido , judiada, até que a anistia da separação nos devolva para quem somos. Acho que é diferente para cada pessoa; para mim foi assim, e agora que me divorciei do homem, casei com a bicicleta.
Não tenho mais dúvidas sobre quem sou: entre casar e comprar uma bike, ficarei para sempre com a segunda opção.
Algumas partes que foram para o exílio morreram por lá. É uma pena: não consegui resgatar a Surina romântica; ela era fofa e deixou saudade. Outras partes minhas conseguiram sobreviver à longa viagem de navio e retornaram sãs e salvas para a terra firme. Tipo a minha parte ciclista, que voltou intacta e com pernas. As outras chegaram com uns arranhões e de braço quebrado mas vão bem, obrigada.
Minha casa não é mais a mesma. Os gatos continuam aqui. No que dá, vou saindo de quem fui na época de casal. Gosto mais de roupas pretas, agora. Minha terapeuta diz que trauma é uma das poucas coisas que altera a estrutura do cérebro. Ao chegar do outro lado, a gente precisa mudar tudo que está fora do nosso corpo para caber de novo na vida.
No fim, tudo passa. Os pensamentos, as emoções. Olha com cuidado o que acontece na sua mente: tudo passa, ensina meu professor. Passa mesmo. Os melhores ensinamentos são simples; difícil mesmo é eles entrarem em nós. Até o coração partido. Ele também passa.
Enquanto estava fazendo a limpa na gaveta de meias, encontrei meu vestido de noiva. Um tomara que caia lindo com sete camadas de tule. Me veio a ideia de doar, me veio a ideia de queimar, me veio a ideia de fazer um ensaio fotográfico trash the dress. É o vestido mais lindo do mundo para um sonho que acabou em oito meses. Não tive nem coragem de encostar nele. Alguns sonhos demoram mais para passar. Fechei a gaveta e deixei o vestido lá.
No outro dia, decidi fazer uma limpa em originains antigos e com o dinheiro das vendas comprei uma passagem para a Índia. Escrevi para uma amiga que mora lá: estou indo. Ela respondeu: você não muda, mesmo. Continua igualzinha. Vem, vai ser bom te ter de volta.
Mais vestido de noiva
Juro que o meu é lindo, por isso já escrevi duas edições sobre ele aqui no Sofá - são alguns dos meus textos preferidos:
Atelier de Escrita de Reconectiva: inscrições abertas
Estão abertas as inscrições para o próximo atelier de Escrita Reconectiva - Reconhecendo o nosso jardim interior.
De 24/08 a 18/09: Reconhecendo o nosso jardim interior - este é o tema do primeiro atelier deste segundo semestre. O que ilumina e o que assusta: aqui, todas as nossas partes são bem-vindas.
Um pouco por dia. Escrevemos juntos meia hora por dia, quatro dias por semana, sempre de manhã (das 8 às 8.30, horário de Brasília). A cada encontro eu proponho um ou mais exercícios curtos nos quais exploramos nossa experiência e criatividade.
Online e ao vivo, pelo Google Meet. Precisou faltar? Não tem problema. Os encontros ficam gravados.
Para quem? O atelier é aberto a todos. Não é preciso ter experiência nem projeto de escrita em andamento.
Para quê? Este atelier é ótimo para quem quer desbloquear um projeto, ganhar intimidade com a escrita, expandir o vocabulário criativo ou simplesmente se reconectar.
R$200
Para marcar na agenda: em outubro e novembro, atelier de Escrita Reconectiva sobre Migrações e Casa
Do dia 19 de outubro ao dia 27 de novembro vou oferecer um Atelier de Escrita Reconectiva especial sobre o tema das migrações e da nossa casa.
Serão seis semanas para escrevermos sobre deslocamentos, pertencimento, viagem, transição. Todo tipo de bardo, partindo do corpo e chegando a castelos mal-assombradas, jardins encantados e abrigos, permanentes ou não.
As inscrições abrem no meio de setembro e eu vou avisando por aqui.
Acho que é isso. Mil desculpas pelos erros de ortografia e digitação que possam ter aparecido nesta edição. É que este Sofá, do começo ao fim, é escrito por humanos.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,





tem um monte de coisa que quero comentar desse texto meu deus do céu. tou aqui sentado numa varanda olhando pra uma montanha do país basco e ouvindo rosalía. pensando: gente eu queria conversar com a surina pessoalmente um dia. ele vai me achar doido. lcd soundsystem? eu sou apaixonado por eles. tenho tatuado: if i could see all my friends tonight… assim mesmo com as reticências… acabei de lembrar que adorava reticências quando era adolescente… hoje em dia me incomoda não conseguir fazer interrogação invertida quando tou ensinando español pros adolescentes na irlanda… partes partes partes… conhece ifs? se não conhece eu vou comprar uma passagem pro alentejo pra falar disso pessoalmente, rs. tinha mais coisa que queria falar. mas tá longo. ah! quero participar da escrita. mas o horário e o dia me faz sofrer. um beijo, querida! e usa o vestido. coisa bonita de vestir é pra ser usado.
Também entrei no mundo dos suplementos, feliz com a notícia de abertura da oficina de agosto/setembro. Participarei com certeza! 🥰