#138. Dossier Mindfulness, 4: desconexão digital
apreciar o mundo & um pouco de Chogyam Trungpa Rinpoche
1. Retiro de mindfulness, dia 1. Amanhã começa o silêncio funcional. Vou estar no refeitório com um saco plástico recolhendo os telefones na hora do almoço,
o instrutor careca com sotaque nova iorquino avisa numa voz familiar, embora esta seja a primeira vez que nos vemos. Acredito em vidas passadas: será que a familiaridade quer dizer que nos encontramos antes?
2. Quero acreditar que sim.
No início dos anos setenta na cidade de Boulder, Colorado, um importante mestre tibetano em exílio criava uma comunidade de ensinamentos. Era a primeira onda budista nos Estados Unidos, e em torno de Chogyam Trungpa se reuniram artistas, poetas e músicos interessados nas questões da mente. Por ali passou John Cage, Allen Ginsburg e (brevemente) a minha musa Natalie Goldberg. Passaram estudantes hippies anti-Guerra do Vietnã que mais tarde criaram editoras budistas como a Shambala Publications, e passaram mestres importantes ligados a outras tradições contemplativas além do budismo - afinal de contas, Trungpa era um cara colorido e aberto ao diálogo entre as práticas de sabedoria ocidentais e orientais.
E o instrutor calvo que está recebendo os celulares aqui no meu retiro? Apesar de não parecer, ele um dia foi hippie e estudou mais de uma década com o professor tibetano. Hoje, cinquenta anos mais tarde, ele e outros estudantes antigos organizam este retiro de quatro semanas para levar adiante as práticas que aprenderam com Rinpoche.
3. No primeiro dia eu não depositei o telefone. Por que entregar meu celular se é só desligar e pôr no bolso da mochila? Além disso preciso de um alarme
, justifico para mim mesma, sabendo imediatamente que se trata de uma mentira deslavada. A verdade é que não preciso de alarme nenhum - todo dia alguém passa para tocar um sino nos despertando às seis da manhã.
4. Retiro de mindfulness, dia 2.
Me arrasto da cama às seis e meia para as liturgias que abrem a sessão inicial, às sete. Café da manhã, sessões de meia hora de meditação, almoço, sessões da tarde, liturgias vespertinas, pausa para chá, janta, preces, sessão da noite.
Depois de um dia experimentando estados de contração e expansão na almofada, volto flutuando para o quarto monástico onde o colchão de solteiro me espera no piso de madeira. Tomo um banho quente de balde, visto meu pijama quentinho e ali, no canto mais remoto da Índia, abraçada pela digna simplicidade do meu quarto num centro de retiros na fronteira com o Butão para onde fui depois de muito planejamento com o propósito de ficar comigo mesma em silêncio, eu entro
no Instagram.
5. Vejo fotos de conhecidos e celebridades, um vídeo da Luana Piovani e vários de gatos filhotes. Respondo mensagens desnecessárias que me chamam com unhas compridas, tentando me convencer que o mundo vai acabar se eu não voltar para aquela luz digital de onde não sai carinho verdadeiro. Quando levanto os olhos, noventa minutos se passaram. A mente, agitadíssima.
Uma hora em meditação mindfulness é uma sessão longa, mas no celular o tempo voa. Por que?
6. Minha primeira experiência de detox digital no retiro, então, é a confissão do fracasso. Sou incapaz de me controlar. Se me deixarem solta, acabo à deriva num vídeo das angels da Victoria’s Secret desfilando. Eu, que só queria pagar uma conta no banco, agora estou vendo uma modelo ucraniana de biquini dourado. Como foi mesmo que eu cheguei aqui?
7. Coração acelerado e sensação de urgência. Nas duas semanas seguintes, deixo o telefone fechado na mochila. O telefone, por outro lado, se recusa a me abandonar. O celular ausente grita por debaixo da minha pele. Na almofada, tenho a sensação constante de que há uma tarefa pendente para terminar, uma mensagem para responder, uma urgência chamando. O mundo precisa de mim. O mundo precisa urgentemente de mim.
Será que o mundo precisa mesmo de mim?
Nos primeiros dias sem o celular, me custa sentir que o mundo pode existir perfeitamente sem a minha presença. A sensação de apreensão é traduzida no peito como aperto. Preciso intervir na realidade mas estou presa nesta sala sem fazer nada com uma estátua dourada ridícula do Buda que eu nem acho tão bonita. O mundo vai acabar se eu não olhar o meu telefone já.
8. Às vezes penso que uma oportunidade imperdível de trabalho apareceu na Inbox e que preciso respondê-la para resolver todos os meus problemas financeiros passados e futuros. Às vezes penso que o meu ex-marido me escreveu algo muito, muito importante. Mas o que de muito importante eu preciso resolver com meu ex-marido? Ele é ex, não é?
A urgência é um adesivo grudento colado ao corpo. Minha segunda experiência de detox digital, então, é a descoberta que eu e o meu celular vivemos uma relação abusiva.
9. Be still and let the world touch you. Fique assim, quieta, e deixe o mundo te encontrar. Depois do dia quatro, a realidade começa a dizer as suas palavras: o mundo acontece sem você. O mundo está diante de mim, posso tocá-lo. Depois do dia nove, é possível apreciar o mundo novamente. É possível deixar que ele me toque.
10. Quando fico o tempo todo tendo que intervir no mundo a partir da urgência, não consigo apreciá-lo, e esta é a minha terceira experiência de detox digital. O senso de urgência serve para isso mesmo: para as emergências, para as crises. Agora não há nada urgente. Se houver, alguém vai ligar para o centro de retiros. Estou aqui, está tudo bem. Posso deixar o mundo me tocar, posso sentir apreciação pelo mundo, permitir que as ideias apareçam sem reagir.
É isto que chamam de mindfulness?
12. Quando a terceira semana entrou, peguei o telefone para resolver alguns assuntos e depois coloquei na mochila de novo.
Na almofada de meditação, continuo saindo para passear com os pensamentos. A diferença, agora, é que noto mais rápido e consigo voltar para a terra sem espernear (tanto). A diferença, agora, é que consigo apreciar o que se passa com o corpo e com a respiração. Às vezes, entretanto, me pego olhando para uma dança imaginária da Shakira dentro da minha cabeça. Mudando de cidade e de emprego, criando uma vida, decorando a casa que um dia terei. Como cheguei aqui? A mente agitada é como um feed do Instagram - descolada do que está à volta, sigo adiante até acabar numa série interminável de ideias que são meus próprios vídeos de gatinhos e de decoração.
13. Os feeds de notícias e a mídia social reproduzem o comportamento da nossa mente quando está desgovernada, e essa talvez seja uma das razões do seu sucesso. Uma novidade se liga à outra e à outra e àquela outra que vai resolver a sua vida amorosa para sempre e bum, você já nem sabe mais onde está. Os conteúdos digitais viciantes exploram nossa tendência mental à fragmentação, uma tendência que já é naturalmente nossa, e esta foi minha quarta experiência de detox digital.
14. Nada de errado com a fragmentação. A mente é feita de matéria que não se pode amarrar, ainda bem. Uma coisa, contudo, sabemos: embarcar na fragmentação ad infinitum nunca foi capaz, até hoje, de me devolver inteira ou de me acalmar. Para isso, o antídoto é outro.
15. E quando o retiro acaba, como fica a minha intoxicação digital? Estou levando na bagagem um sonho ou uma ilusão, ainda não sei bem. Na minha fantasia, posso viver melhor com meu celular. Assim mesmo, com uma simplicidade canina. Uma respiração de cada vez.
Notinhas
Esta semana o Sofá da Surina saiu com uma semana de atraso por motivos de: árvore do Buda. Semana passada entrei numa maratona de ensinamentos com meu professor aqui em Bodhgaya, na Índia, e quase não tive tempo para editar as notas do retiro de mindfullness do qual fui parte outubro passado!
A edição de hoje é a parte 4 de um dossier sobre a prática de meditação mindfulness. Se você gostou, aqui estão os outros textos:
Recomendações
- Este texto muito bonito da Lidyanne sobre vida de imigrante - ou, nas palavras dela, sobre as caminhadas longas de quem deseja partir.
-Dragon Thunder (só em inglês, por enquanto) é um livro daqueles que não dá para largar no qual Lady Diana Mukpo, esposa e aluna de Chogyam Trungpa Rinpoche, conta as histórias da sua vida com o grande mestre tibetano. O livro é uma viagem biográfica e além, para a cena budista, artística e social dos Estados Unidos na década de setenta e oitenta nos Estados Unidos.
4 maneiras de apoiar o Sofá da Surina
Você pode apoiar comprando um dos meus livros: O mundo sem anéis - 100 dias em bicicleta e o 108 (entregas para todo o Brasil). Eles também estão disponíveis em formato Kindle (108 aqui e O mundo sem anéis aqui).
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Ah! E que você seja feliz, sempre. Até a próxima,




Ontem foi o último dia de trabalho e resolvi ficar offline durante as férias (entende-se: sem Instagram), fiz até post pedindo pra todo mundo me ajudar. Daí hoje eu entrei, uma vez só, pq eu “precisava” fazer post de feliz aniversário pro meu sobrinho. Mas gente, ele fez 4 anos, nem tem Instagram. Por quê? Pra quem??
Que texto delicioso!