#161. Fazer parte de uma seita
Pequena lista das coisas que dão vergonha, parte 1
Confesso.
Por alguns anos desta minha vida, quando eu ainda era jovem, fiz parte de um culto. Era um culto pequenino, praticamente desconhecido, e claro que ninguém que estava dentro via assim. A palavra proibida só surgia como piada ou anedota quando a gente tomava um café, imagina, alguém dizia, tive que fazer malabarismos pra vir esta semana. Minha mãe agora diz que estou numa seita.
Um comentário como este sempre gerava comoção pública entre os demais integrantes presentes, por isso o consolo era imediato. Um segundo depois, o amigo que tomava iced tea ao lado emendava, sinto muito que os seus pais não estejam prontos para a Verdade, eu sei que dói, e no final a gente se afinava em coro dizendo frases elevadas, seja forte, e ria da ignorância dos outros que achavam que o nosso lunático grupo era uma bolha dogmática que tinha perdido mão da realidade.
A lição aqui é simples: se você e os seus amigos têm que justificar o tempo todo que o seu grupo não é uma seita, tome distância e olhe com cuidado. Existe uma chance de você estar errado.
Por bastante tempo me perguntei se era desde o início ou se o nossa turma se transformou num culto com o tempo. Foi uma das primeiras questões que me fiz quando questionar voltou a ser possível, e a minha conclusão é Não.
No começo, nos juntamos porque tínhamos uma interpretação sobre a vida que parecia original. A gente queria viver diferente, ter mais contato com a natureza e menos fixação em projetos de consumo. Pessoas de todos países e de todas as idades poderiam viver lado a lado, as pessoas sêniors que eram nossa referência tinham uma conduta impecável. Não havia dinheiro envolvido, trabalhávamos juntos à distância enquanto, ao mesmo tempo, tentávamos entrar em contato, tocar, dar forma à visão que habitava o intangível interior de cada um de nós.
Não deixa de ser bonito, o sonho utópico. Neste começo, ninguém mencionava o termo seita, tão distante que nem chegava a ser fantasma. Éramos só um grupo de pessoas diferentes costuradas por um sonho e um par de ideias comuns, mais nada.
Nas últimas semanas, me joguei no sofá assistindo uma leva de documentários: ao lado da astrofísica, o tema da criação e ruína das seitas me fascina há anos.
Olhos vidrados na tela, acompanhei fascinada as primeiras pessoas que foram viver no ashram do Osho, em Pune. Elas estavam high, encantadas e - ouso dizer - muito felizes. Dois dias depois, estou assistindo hipnotizada o que acontece em Santa Mônica, Califórnia. As noits de jazz rolam soltas na comunidade cheia de sonhos do pessoal do Synanon, um projeto de vanguarda originalmente concebido como uma alternativa de desintoxicação para viciados em narcóticos na década de 60.
Acho que consigo entender o que eles sentem. Não deixa de ser bonita a utopia, repito. É um sonho que inebria. De repente você não está sozinho nem precisa lidar com os seus espaços vazios: eles são preenchidos forever por um ideal. Agora há outras pessoas junto com você entrando em contato, dando forma, criando o intangível, acreditando junto.
Uma ilusão, claro. Mas também um farol e uma inspiração. Pensa: John Lennon cantando imagine all the people living life in peace. No clipe, ele e a Yoko caminham por uma floresta até entrar numa sala vazia onde ele se senta ao piano enquanto ela abre as janelas para deixar entrar o novo futuro.
No fim das contas, meu caso não foi dramático o suficiente para virar testemunho num documentário, nem o destino do culto foi épico como o daqueles retratados nos filmes. Éramos um grupo pequeno e o desfecho da minha vida de participante de seita é até entediante, se você for pensar.
Foi assim: no princípio, tudo bem que cada um tivesse as próprias ideias além da visão comum, mas com o tempo comecei a sentir pressão porque parecia que as ideias compartilhadas tinham que ter prioridade. Fofocas sobre pessoas que tinham ido explorar outras tradições se multiplicaram, que pena, ele está fugindo, não aguenta entrar em contato com a Verdade, diziam, tudo isto combinado com um silêncio constrangedor que pesava quando esbarrávamos no assunto de alguém que tinha decidido deixar o grupo.
Comecei a achar aquilo chato e fui me afastando sem pensar muito. Participava cada vez menos e passei a usar meu tempo para experimentar com a pintura de aquarelas grandes. Porque nunca colei com a visão de que era um problema nadar em outras águas, fui explorando novas tradições, lendo livros e conhecendo pessoas de outros meios.
Algumas vezes eu me emputecia, noutros períodos me acalmava, um dia minha reação ao grupo estabilizou. O tempo se encarregou de filtrar a parte dos ensinamentos que servia e a que não me servia mais. A gente não joga fora tudo o que foi: algumas daquelas ideias continuam fazendo parte da minha visão de mundo.
Os anos passaram, conheci um novo professor e me tornei budista. Fim.
Por alguma razão, mantive uma porção de amigos daquela época. Eles não acham que fazem parte de um culto, mas eu acho que fazem e vivemos bem assim. Liberdade religiosa está no coração dos direitos civis. Cada um com sua crença. Não fui renegada, então pode ser que eles estejam certos sobre não serem uma seita. Pelo menos em parte.
Assistir os documentários da Netflix e da HBO me fez bem. Entre os entrevistados, tinha bastante gente extremista, mas também gente sensata, e ainda mais: pessoas interessantes. Muitas. Tem algo de corajoso em sair da caixinha e participar de um projeto não-ortodoxo de vida - óbvio, desde que o projeto alternativo não seja racista, misógino, xenófobo, eugenista, fascista etc. Não é disso que estamos falando; eu não teria experiência ou conhecimento para escrever sobre isto.
Os documentários me ajudaram a fazer as pazes com esta parte da minha vergonha. Além disso, passei a enxergar uma parte boa em ter feito parte de um culto: os documentários me trouxeram de volta para um lugar familiar, um lugar que eu conheço. Era com uma precisão cirúrgica que eu conseguia identificar na tela os primeiros sinais, ainda inocentes, de que o projeto inicial ia descer ladeira abaixo.
Hoje em dia, a bolha da internet está tão impermeável que entender comportamentos de culto tornou-se uma item muito bizarro dentro do kit pessoal de ferramentas que eu uso para navegar a realidade com lucidez. Penso na machosfera, penso nas teorias da conspiração. Sistemas de crença sólidos dentro dos quais o absurdo faz todo sentido. Tipo um culto.
Tenho muito para falar sobre este assunto. Podia ficar horas escrevendo, mas este não é um texto só sobre culto. No mês de julho, o Sofá vai ter uma editoria toda dedicada ao tema da vergonha. O que de mais estúpido você já fez que te dá arrepio pensar? Será que existe algum tipo de caldeirão interior onde os casos vergonhosos dos quais a gente fez parte podem se transformar em alguma outra coisa? Será que há por aí algum feitiço que nos ajude a simplesmente aceitar os inevitáveis embaraços que encontraremos nesta absurda viagem que é viver?
Desta vez não vou anunciar os assuntos de cada texto do mês. Prepare o glitter, as ombreiras e mangas bufante: julho vai ser todo dedicado ao ridículo que nos habita.
Tudo Culto
Leitura: Dune, do Frank Herbert (publicado no Brasil pela Aleph, com tradução de Maria do Carmo Zanini), é uma história absolutamente maravilhosa de ascensão de um líder, formação e ruína moral de um culto.
Três documentários:
Wild Wild Country, na Netflix.
The Synanon Fix, na HBO Max.
Love has won: the cult of Mother God, na HBO Max.
Sabia que eu tenho dois livros publicados?
E eles são lindos. Quer apoiar este Sofá? Você pode comprar meus livros por aqui:
O mundo sem anéis
108
Mil desculpas pelos erros de ortografia e digitação que possam ter aparecido nesta edição. É que este Sofá, do começo ao fim, é escrito por humanos.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,






adorei o tema, sou obcecada por documentarios/séries sobre seitas e tb já escrevi sobre eles.
achei forte o que vc disse: "é um sonho que inebria. de repente você não está sozinho nem precisa lidar com os seus espaços vazios: eles são preenchidos forever por um ideal". parece cômodo mesmo.
já li e amei teus livros, by the way <3 bom domingo!
amei o tema do mês do meu aniversário!
vou me emperiquitar aqui com polainas sintéticas, ombreiras brilhosas, mix de estampas duvidosas e um blush bem marcado em forma de coração pra aguardar as próximas edições 🧚🏾♀️