#150. O desconhecido
Recomeçar
Esteja atenta e deixe as caixas de transporte por perto. Se um evento perigoso acontecer, coloque os gatos debaixo do braço e procure outra vida para morar.
Lista não-exaustiva de eventos perigosos: não ter mais vontade de acordar. Acordar sem saber o que você está fazendo aí. Perguntar-se e agora? em looping. O que tinha todo sentido antes já não tem razão de ser, casa, amigos, o ashram onde você um dia viveu. Você olha em volta e constata: a única coisa que continua com significado são os seus gatos sedosos e perfeitos.
Não é por falta de querer, veja bem. Você tenta, você queria que desse certo, obsessivamente escarafuncha saídas para achar bom aquilo que perdeu a razão de ser. Mas não tem jeito de encaixar o quadrado no redondo. Você não consegue mais suportar a vida que um dia escolheu.
Antes que você mesma pare de fazer sentido, você toma a decisão de sair. Ficar é mais fácil, mas também perigoso. Se continuar onde está, o risco é você se perder de vez. Este lugar não é mais seu. Este lugar não é mais pra você. De vez em quando a existência te pega numa encruzilhada, e se tem uma coisa que salva é este pensamento luminoso que não dá bem pra saber bem se é esperança, delírio ou intuição, deve haver uma outra vida esperando por mim em outro lugar.
Foi neste sábado passado de começo de primavera aqui no Alentejo. Nós três sentamos nos degraus da casa dela, porta que dá para a rua, tomando sol nos paralelepípedos em frente à igreja de São Martinho das Amoreiras. Ela trouxe chá de camomila e salada com hummus.
Nós três temos o mesmo problema, veja bem. Enfio a fatia de pepino até o fundo do creme de grão de bico. Queremos começar a vida em outro lugar, mas temos medo do desconhecido.
Das três, Susan é a nossa abre-alas. Ela é a que vai primeiro, já está tudo organizado. Em maio, minha amiga volta para Munique depois de doze anos vivendo aqui. Arranjou emprego, escola pra filha, o ex-marido ainda não decidiu se vai mudar também. Mesmo com tudo organizado ela tem medo.
Do quê, pergunto, porque na minha cabeça tudo parece certo e seguro para o recomeço. Não sei, ela diz. Às vezes não tem como saber, mas ela tem medo, aqui é conhecido e parece seguro, o problema é que por mais que tente ela não consegue mais ir pra frente depois do divórcio. Além disso, a filha está virando adolescente e uma vila de mil habitantes é pequena demais para uma menina de 12 anos. Tá tudo certo, mas é apertado. Falta inspiração e vontade de sonhar. Então me diz, por que você tá indo, baby? Ela estica o braço e agarra uma tira de pimentão do tupperware. Sei lá, Surina. Nos últimos meses eu tenho me dado conta que continuar pequena está me custando muito caro.
Você está diante da porta. Não é um lugar onde você já esteve, mas você sabe que é a sua casa porque o som da maçaneta faz um clique de relógio que nenhuma outra maçaneta faz, a não ser a sua. Sua casa é feita de cimento por fora, nem grande nem pequena, 60 metros quadrados, a casa mais normal do mundo. Você atravessa a porta de PVC branca e dá o passo para o lado de dentro, paredes de madeira clara, e você entende que entrou dentro de um sonho. É piso ou nuvem? Os gatos vão caminhando atrás de você, Haiku, Lillipot, o espírito fantasmagórico da Bijoux. Ainda falta terminar a cozinha, ainda falta o banheiro, tomara que o dinheiro dê. Você não conhece os vizinhos, mas eles virão. Por enquanto é dar comida pros gatos e sair pra comprar pão. Descobrir onde é a padaria, aliás. Você não sabe direito quando, mas os vizinhos virão, ou os amigos. É um pensamento fino mas precioso, porque é um pensamento que faz sonhar, este da nova vida. Eles virão.
Preciosa Vida, Preciosa Morte – inscrições abertas até 05/06!
De 06/04 a 03/05 Assim como há dureza na vida, também há suavidade na morte. Quantas lutos e quantos renascimentos dá pra viver num corpo só? Esta edição do atelier de Escrita Reconectiva convida a encontrar com a morte por meio da escrita.
Um atelier prático. Quatro vezes por semana, meia hora por encontro, começamos o dia escrevendo para observar a vida a partir do prisma do fim.
Encerramentos de ciclo, renascimentos. A fênix; a nova pessoa que se inaugura quando viramos mães de alguém. A partida da avó, a planta que murchou por excesso de água. Morte e a vida, juntas: este é o tema do atelier, que alia escrita com mindfulness & compaixão e, aqui, reflexões budistas e literárias sobre a morte.
Quando De 06/04 a 03/05. Segundas, terças, quintas e sextas.
Das 8 às 8.30 da manhã (horário do Brasil).
Online pelo Google Meet. Os encontros são ao vivo e ficam gravados.
Para quem? O atelier é aberto a todos. Não é preciso ter experiência nem projeto de escrita em andamento.
Para quê? Este atelier é ótimo para quem quer desbloquear um projeto, ganhar intimidade com a escrita, expandir o vocabulário criativo ou simplesmente se reconectar.
Valor R$200 ou 35 euros (para quem não está no Brasil)
*Está com dificuldades financeiras e deseja participar mesmo assim? Por favor escreva - ofereço duas bolsas por atelier.
Sabia que eu tenho dois livros publicados?
E eles são lindos. Quer apoiar este Sofá? Você pode comprar meus livros por aqui:
O mundo sem anéis
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Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,




Quando eu era criança, me taxaram de "insatisfeito crônico", aquele pra quem nunca nada tá bom. Isso fez com que eu crescesse com a sensação de que "querer coisas novas ou melhores" era inadequado, apenas um sinal de alguma doença ou traço frágil de personalidade. Hoje, vejo o quanto isso me inibiu de tentar caminhos novos, não só pelo medo habitual que isso produz, mas pelo receio de ser julgado e colocado, mais uma vez, no rol dos insatisfeitos. Acho que é bom ser insatisfeito, na verdade. Como você disse, "se tem uma coisa que salva é este pensamento luminoso que não dá bem pra saber bem se é esperança, delírio ou intuição, deve haver uma outra vida esperando por mim em outro lugar".
Só vai... o caminho se abre para quem caminha. <3