#158. Recomeçar
A chegada do Sushi
No começo é difícil sair do quarto escuro. Fora dele vai ser estranho, e desconhecido, e não dá para saber se o que a gente vai encontrar são monstros, alegria ou uma tristeza infinita.
Ele estava numa gaiola do tamanho de uma caixa de papelão. A moça abriu a porta da casa escura e de dentro saiu um cheiro de terra misturado com vida. Era uma casinha feita de muitas gaiolas com pequenas portas gradeadas. Cheiro de urina e de excremento e de suor e de lambidas e de remédio e de comida e de amor.
Junto dele havia mais outros quatro. A mãe impassível, preta e branca, se escorava contra a parede do fundo com os peitos cheios de leite. Os filhos crescidos, seis semanas já. Dois meninos, uma menina. Se fosse na rua, ela já teria ido embora e nem teria mais leite, disse a moça que me recebeu. Mas ela tinha sido recolhida da rua grávida, protegida pelo pessoal do abrigo dentro da gaiola segura, longe das ruas e das doenças e da maldade, por isso não tinha escolha. Por um tempo, pelo menos, ela tinha que ficar ali.
Nem o corpo dela tinha opção: seguia produzindo comida de filhote. Se estivesse na rua, os gatinhos já com dentes formados não estariam mais machucando os bicos do seu peito. Passou da hora de irem embora, a voluntária do abrigo foi assertiva. Estou terminando aqui - e então, qual dos bebês você vai levar?
No começo é difícil sair do quarto escuro. O quarto é minúsculo, mas é confortável e ainda por cima tem os cheiros conhecidos e os cantinhos que você conhece bem quando precisa se esconder.
O branco e preto, o de olhos pequenos, deitou contra o corpo da mãe peluda quando cheguei perto. Dois irmãozinhos vieram lamber-lhe a cabeça. A moça abriu a gaiola, ele correu para trás da pilastrinha de madeira. Estiquei o braço. Ele disparou para o outro lado.
A moça do abrigo era mais decidida, agarrou o bicho que se desfazia aos berros e jogou na minha mão. O peludo cravou as garras na camiseta e escalou o meu pescoço. De dentro da bolsa, a moça tirou o celular, vamos fazer uma foto para postar a sua adoção na nossa página do Instagram.
Em vez de um filhote aninhado nos meus braços, nosso primeiro retrato de família foi a de um gato desesperado tentando pular meu um metro e sessenta e dois de volta para a liberdade.
Cada um é livre sua maneira. A liberdade que ele queria era a gaiola com aqueles que amava. O lugar onde nasceu e o lugar onde ficaria para sempre, se pudesse escolher, sendo lambido pelos irmãozinhos e abraçado pelo corpo peludo da mãe.
Aí então veio a outra caixa, a do transporte. Menor do que a gaiola, e ele chorou. Tudo era estranho. Os cheiros, os movimentos, o calor de trinta e cinco graus em pleno mês de maio. É um karma, este, nascer filhote à beira do verão em plena mudança climática no meio do desértico Alentejo.
Então ele chorou com toda a força. Eu fui dirigindo, uma hora e meia até chegar em casa, contornando estradas ainda bloqueadas por conta das enchentes no começo do ano. É que em tempos de mudança climática teve enchente no Alentejo.
Minha amiga ia no banco do passageiro com a caixa no colo tentando acalmá-lo. O gato hiperventilava. O gato fervia. O gato babava. Paramos no meio da estrada e jogamos um pouco de água no corpo do bicho. Era um corpo forte de quem tinha sido salvo a tempo, um corpo de quem sempre mamou e nunca foi deixado na rua. Ele fechou a boca, mas não se acalmou. Deixei a amiga em casa e dirigi de volta para a minha. Fiquei com medo que o gato fosse morrer.
No começo a gente quer ficar numa sala escura e conhecida onde tudo é previsível e seguro, por isso coloquei-o no quarto de trás da casa, separado dos outros gatos.
Botei água, comida e ração. O gato não saía da caixa de transporte. Não comeu e não tomou água. Ficou no fundo, encolhido. Eu queria que me arranhasse, que chorasse, que miasse aos berros, que atentasse contra o seu destino terrível, maldito planeta onde não nos é dada a chance de escolher, mas ele não fez nada disso.
O gatinho me olhou pelos seus olhos muito pequenos do fundo da caixa com a tristeza da separação. Os olhos refletiam a meia-luz e juro que estavam cheios de lágrimas. Liguei para minha amiga enfermeira veterinária, gato chora? Ela disse que não, mas entendi que ela não sabia nada sobre a alma dos gato. Mudo e incapaz de comer, tomar água ou usar a caixa de areia, o gato chorava calado no fundo da caixinha.
No dia seguinte o gato continuava imóvel no mesmo lugar. Pensei que talvez fosse colapsar. Afinal de contas, era só um bebê, estava desidratado, faminto e sem movimento algum. Tremia; perguntei para o ChatGpt e ele me respondeu, é fome e stress. Tentei tirá-lo de lá e ele reagiu pregando as garras no cobertorzinho. Quando finalmente consegui arranca-lo da caixa, ele voltou imediatamente pra lá.
É isso, estou matando mais um gato. A morte e a tragédia me perseguem desde que me separei. Parece que tudo que toco vira funeral.
A amiga que tem cinco peludos veio trazer areia. Disse que ele estava assustado, meu gato passou dois meses embaixo da cama, ela disse, tem que brincar com ele, e me entregou o ratinho de pelúcia com um rabo verde feito de penas. Depois foi embora.
Comecei a arrastar o ratinho com a desesperança dos vencidos, pra lá, pra cá, pra lá, o gato imóvel, o gato tremendo, o gato chorando, opa, uma patinha no ar. Vou mexendo o rato de pelúcia, outra patinha, isso, isso, é um brinquedo, Sushizinho, é um brinquedo.
No começo é difícil sair do quartinho. É tudo estranho, e desconhecido, e não dá para saber o que esperar. Às vezes me pergunto se ele lembra ou sente falta dos irmãos e da mãe. Às vezes me pergunto como funciona a memória dos gatos. Se eles têm saudade. Acho que ele tem, mas a vida é rápida, o quarto é grande e ainda por cima há os músculos pra descobrir, os músculos para usar, os músculos que estavam adormecidos na gaiola e que agora despertaram para os saltos acrobáticos e as cambalhotas e os capotes, meu Deus, será que ele sobreviveu depois de cair da mesa?
Mas ele levanta, tomara que não tenha tido uma concussão cerebral, eu penso. Não é nada. Ele lambe as patas da frente, corre mais um pouco e depois se enrola exausto na mantinha azul.
É o mundo, filhote. Mas ele já não ouve, esticado no meu colo. Mexe os bigodes e o focinho, correndo livre lá dentro dos sonhos dos gatos.
Recomendações
Este texto maravilhoso da Fal - a newsletter dela, aliás, é uma das minhas favoritas da vida:
Estes tempos eu assisti uma série antiga da HBO, Girls, que me impressionou muito. Fiquei apaixonada pela autora-diretora-protagonista Lena Dunhan e suas personagens esquisitas que são tão eu, e quem sabe são tão você, também. Este texto aqui da Luisa acertou em cheio para dizer o que eu não encontrava palavras para descrever:
Junho no Sofá
É tempo de Sushi aqui em casa. Adotei um novo gatinho no mesmo dia em que (finalmente) assinei os papéis da separação, então estamos falando de um Bicho Portal, um Gato Mágico, um Felino Místico. Neste mês, as edições do Sofá da Surina vão contar histórias sobre o Sushi para falar de Recomeço. Esta edição aqui foi sobre medo e recomeço. Semana que vem o assunto será a relação com o espaço. A última edição do mês, finalmente, vai ser uma conversa sobre mindfulness.
Não é a primeira vez que eu escrevo sobre a chegada de um gatinho: em fevereiro eu escrevi sobre a chegada da Bijoux, uma gatinha muito doente que caiu na minha mão. A Bijoux ficou comigo durante três semanas, apenas, e partiu com este texto aqui, que é um dos meus preferidos desta newsletter.
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O mundo sem anéis
108
Mil desculpas pelos erros de ortografia e digitação que possam ter aparecido nesta edição. É que este Sofá, do começo ao fim, é escrito por humanos.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,








Celeste saúda o Sushi!
Animada para os próximos textos de sushizinho :) bem vindo gatinho