#159. Rehabitar
Sushi & Transformando a casa mal-assombrada da separação
Estou sentada no sofá verde menta olhando para a imensa porta de vidro que dá para a estrada onde não passa ninguém.
Sushi dorme na sua nova caminha ao meu lado. Branco de arroz & preto de alga, descobri com o novo filhote que bicolores vira-latas são os meus preferidos. A porta, por outro lado, é só branca e de raça. Tem vidro duplo, três metros de comprimento por dois e meio de altura e eu a odeio muitíssimo.
Uma porta imensa que contém tudo que eu desprezo na vida. Exagerada, cara, excessiva, cafona de tão chique. Se abre no verão, entra mosquito. No inverno, deixa passar água pelas frestas do silicone de fixação. Porque é grande e virada para a rua, nem posso ficar ali de calcinha - vai que alguém resolve passar na estrada? Às vezes acontece. Sinto-me desprotegida e sem privacidade. A ridícula porta que custou um milhão de dólares.
Volta e meia eu penso: se tivesse tido alguma escolha, teria usado o dinheiro para ir para a Índia dois anos seguidos. Mas eu não tive, e ainda por cima paguei por ela mesmo assim quando comprei a parte dele na casa. Mais uma herança bad do casamento.
Estou sentada olhando para a porta com um pouco de ódio. O Sushi, por outro lado, não tem opiniões fortes sobre o assunto. Ele ronrona, estica a pata e me olha com aquela cara de gato velho que veio no corpo errado.
Antes de ser lar, minha casa era uma pocilga desativada. Como na planta original, ela continua tendo só dois cômodos divididos ao meio. O cômodo da frente, onde hoje é a cozinha, quarto e sala, originalmente era o setor de porcas com fihotes recém nascidos. A parte de trás, onde fica esta porta insensata, era moradia da comunidade suína geral. Durante meu casamento, esta metade da casa era onde funcionava o workshop do meu ex.
Por um ano, desde que me separei, não consegui entrar lá.
É uma coisa meio mal-assombrada morar numa casa com um cômodo onde você não consegue entrar. Ainda mais se o cômodo é tipo metade da casa.
Umas quatro vezer por semana era inevitável. Eu precisava pegar o lixo da reciclagem ou engraxar a correia da bicicleta, jogar um pote de molho de tomate no lixo e voilà. Cruzava a porta de madeira e ia com foco na lixeira, mas às vezes me distraía no caminho: nossa, preciso organizar esta pilha de molduras urgente, começava a mexer e bum. Pulava uma foto de viagem com o falecido.
Um vestido de noiva, uma peça do monitor, um aparelho que eu precisava devolver pra ele. Então, o colapso. Fechar a porta, sentar no sofá, chorar como sei lá o quê, talvez dois ou três dias pra sair daquela sofrência, nunca mais nunca mais nunca mais eu quero entrar nessa porra de quarto.
Todo mundo sabe que lugares abandonados são o refúgio preferido dos espíritos que se perderam no além. À medida que o tempo passava, o quarto dos fundos ia ficando cada vez mais horripilante. No inverno virou uma geladeira sem aquecimento. A parede em cima da porta mofou. As formigas infestaram o piso e mesmo com a luz acesa ele parecia sempre mais escuro que o normal.
Tentei de tudo: transformei provisoriamente em quarto durante um tempo, depois em atelier, mas o Voldemort que vivia ali era mais forte do que eu. Uma força maligna me impedia de entrar, então eu reorganizava os móveis, colocava tudo de volta, fechava a porta e prometia nunca mais nunca mais.
Outra coisa de ter um quarto mal-assombrado em casa é que você fica com um apêndice podre constantemente pendurado. É tipo uma casa com um carrapato que você não desgruda. Se passa muito tempo, a parte ruim começa a necrosar o resto do corpo.
Mas aí eu adotei o Sushi, e ele precisava de um lugar para ficar separado dos outros gatos. Numa casa de dois cômodos, tivemos que encarar o que era possível: meu gato filhote no quartinho do trem fantasma.
Fiz o melhor que dava. Acendi incensos, coloquei pratinhos coloridos de comida e espalhei um punhado de brinquedos no tapete. O preferido dele é o rato verde e rosa, o rato da Mangueira que ele morde e chuta e abraça na hora de dormir.
Os outros gatos ainda não suportam o Sushi. Sushi, por sua vez, não suporta ficar só. E eu não suporto ouvir seus miados solitários, por isso comecei a ficar no quarto horrível com ele.
Sushi pula, dá cambalhotas, se esborracha no chão, vai na caixinha de areia, come e dorme no meu colo ronronando. Tenho dó de acordá-lo, então deixo que fique ali enquanto leio ou faço as minhas práticas.
Passo muito tempo aqui agora. Pendurei um quadro novo na parede, e num desses dias em que o Sushi capotou eu tive ideia de construir uma divisória japonesa e transformar este lado da casa em atelier de verdade. Sushi ronronando, eu desenhando as medidas na imaginação.
Coloquei tudo no papel e fui à serraria. Comprei 50 pedaços de madeira e passei duas semanas lixando, envernizando com óleo de linhaça e montando paineis lindo de mais de dois metros de altura. Um amigo que é carpinteiro veio instalar.
Sinto-me num templo xintoísta com meu gato esquisito.
Semana que vem uma outra pessoa vem instalar uma luminária que comprei de segunda mão por dois euros. Sushi é um gato meio japonês e com cara de alien. Pensei em chamá-lo de Yoda, mas achei meio ruim de pronunciar em português. Mas tenho a impressão que ele sempre me aconselha, que a força esteja com você, Surina.
Os outros gatos não gostam dele ainda, mas o Sushi não se importa. Passamos as manhãs aqui, dando cambalhotas e usando a caixa de areia. Voldemort se cansou dos rons rons dele, foi expulso daqui por excesso de fofura. Dizem que se mudou para o Algarve.
Junho no Sofá
É tempo de Sushi aqui em casa. Adotei um novo gatinho no mesmo dia em que (finalmente) assinei os papéis da separação, então estamos falando de um Bicho Portal, um Gato Mágico, um Felino Místico. Neste mês, as edições do Sofá da Surina contam histórias sobre o Sushi para falar de Recomeço. Na edição da semana passada, escrevi sobre medo e recomeço e desta vez o assunto foi a relação com o espaço. A última edição do mês, finalmente, vai ser uma conversa sobre mindfulness.
Vamos falar de rituais de escrita? Próximo encontro do Sofá: 20/06 (sábado), às 9h (horário do Brasil)
Queridas leitoras e leitores, este Sofá é gratuito. Apesar de não custar nadinha, o Sofá requer bastante dedicação aqui do meu lado, então ano passado criei uma campanha no Apoiase para que os leitores que desejem possam apoiar financeiramente o Sofá todos os meses e permitir que ele permaneça aberto. (Você pode apoiar a partir de R$7 por mês!).
As edições da newsletter são para todo mundo, mas os Encontros do Sofá são exclusivos para apoiadores quem está faz as oficinas de Escrita Reconectiva comigo este ano.
Na próxima edição dos Encontros do Sofá vamos conversar sobre rituais de escrita. Bora se juntar?
*Apoiadores e participantes dos ateliers de escrita vão receber o link do Google Meet pelo email.
Sabia que eu tenho dois livros publicados?
E eles são lindos. Quer apoiar este Sofá? Você pode comprar meus livros por aqui:
O mundo sem anéis
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Mil desculpas pelos erros de ortografia e digitação que possam ter aparecido nesta edição. É que este Sofá, do começo ao fim, é escrito por humanos.
Ah! E que vocês sejam felizes, sempre. Até a próxima,





um gato filhote é a melhor purificação possível de um ambiente 🖤🤍
Como não amar o Sushi???